segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Jesus e a escravidão

Entrevista concedida por Donald A. Carson, Ph.D. a Lee Strobel.

D. A. Carson é professor e pesquisador do Novo Testamento da Trinity Evangelical Divinity School

Para ser Deus, Jesus tinha de ser eticamente perfeito. Todavia, alguns críticos do cristianismo acusam-no de não o ser porque, segundo eles, Jesus teria compactuado com a prática moralmente abominável da escravidão.

Conforme escreveu Morton Smith:

O imperador e o Estado romano tinham inúmeros escravos; o templo de Jerusalém possuía escravos; o sumo sacerdote tinha escravos (um deles perdeu uma orelha quando Jesus foi preso); todos os ricos e praticamente toda a classe média tinham escravos. Até onde sabemos, Jesus nunca atacou essa prática. [...] Parece que houve uma revolta de escravos na Palestina e na Jordânia na mocidade de Jesus; uma pessoa que liderasse essa revolta e fosse ao mesmo tempo um operador de milagres teria atraído muita gente. Se Jesus tivesse denunciado a escravidão ou prometido a libertação dos escravos, não há dúvida de que teríamos ficado sabendo. Mas não há registro de que isso tenha ocorrido, portanto, pela lógica, tudo indica que ele não disse nada a esse respeito.[1]

Como é que se pode equacionar o fato de que Jesus não se empenhou pela libertação dos escravos com o amor de Deus por todas as pessoas?

— Por que ele não se levantou e disse em alto e bom som: 'A escravidão é errada"? — perguntei. — Não teria Jesus falhado moralmente por não se empenhar pelo fim de uma instituição que humilhava as pessoas, feitas à imagem de Deus?

Carson endireitou-se na cadeira.

— Creio que as pessoas que fazem esse tipo de objeção estão confusas — disse ele. — Se você me permite, vou primeiro contextualizar a escravidão, antiga e moderna, porque em nossa cultura ela naturalmente apresenta certas características que não tinha no mundo antigo.

Acenei para que prosseguisse.

Derrotando a opressão

— Em seu livro Race and culture,[2] o estudioso afro-americano Thomas Sowell ressalta que em todas as grandes culturas mundiais, até a Idade Moderna, sem exceção, houve escravidão — Carson explicou. — Embora fosse muitas vezes o resultado de conquistas militares, a escravidão servia geralmente a propósitos econômicos. Não havia leis de falência naquela época, portanto, quando alguém ficava muito endividado, vendia-se a si mesmo e/ ou a família ao regime de escravidão. A escravidão servia não somente como pagamento de dívida como também proporcionava trabalho. Não era necessariamente uma coisa tão ruim; era, pelo menos, uma opção de sobrevivência. Por favor, entenda-me: não estou tentando de forma alguma dar à escravidão um ar romântico.

Todavia, no tempo dos romanos, havia trabalhadores subalternos que executavam tarefas próprias de escravos, mas havia outros também em funções equivalentes às de doutores, que ensinavam as famílias. A escravidão não estava associada a nenhuma raça em particular. Na escravidão americana, porém, todos os negros, e só eles, eram escravos. Esse foi um dos horrores característicos dela, o que gerou a idéia injusta de que os negros eram inferiores, contra o que muitos de nós lutamos ainda hoje. Vamos agora ver o que diz a Bíblia. Na sociedade judaica, a lei determinava que, no Jubileu, todos os escravos tinham de ser libertos. Em outras palavras, a cada sete "semanas" de anos a escravidão era abolida. Se as coisas funcionavam de fato desse jeito já é outra história, mas a ordem divina era essa, e foi nesse ambiente que Jesus cresceu. É preciso ter em mente a missão de Jesus. Basicamente, ele não veio com o objetivo de derrubar o sistema econômico romano, do qual a escravidão fazia parte. Ele veio para libertar homens e mulheres de seus pecados. E aí onde quero chegar: o que sua mensagem faz é transformar as pessoas de modo que comecem a amar a Deus de todo o seu coração, alma, mente e força, e comecem também a amar o seu próximo como a si mesmas. Naturalmente, isso tem um impacto na idéia de escravidão.

Após uma pausa, prosseguiu:

— Veja o que diz o apóstolo Paulo em sua carta a Filemom a respeito de um escravo foragido chamado Onésimo. Paulo não diz que a escravidão deve ser abolida, porque isso simplesmente culminaria com a execução daquele escravo. Em vez disso, ele diz a Filemom que trate bem a Onésimo como um irmão em Cristo, assim como trataria o próprio Paulo. Depois, para deixar bem clara a situação, Paulo enfatiza: "Lembre-se, você deve sua vida a mim por causa do evangelho". A abolição da escravidão, portanto, ocorre pela transformação de homens e mulheres pelo evangelho, e não meramente pela mudança do sistema econômico.

Todos nós já vimos o que acontece quando simplesmente se extingue um sistema econômico e se impõe uma nova ordem em seu lugar. O sonho comunista era ter um "homem revolucionário" seguido do "novo homem". O problema é que os comunistas nunca encontraram esse "novo homem". Livraram-se dos opressores dos camponeses, mas isso não lhes deu liberdade imediata; passaram apenas para um novo regime de trevas.

No fim das contas, se quisermos uma mudança que perdure, temos de transformar os corações dos seres humanos. E essa era a missão de Jesus. Vale também a pena fazer a pergunta que Sowell faz: como foi que a escravidão acabou? Ele destaca que o ímpeto propulsor da abolição da escravidão foi o despertamento evangélico da Inglaterra. Os cristãos pressionaram pela abolição no Parlamento no início do século XIX e, por fim, usaram as canhoneiras inglesas para deter o tráfico no Atlântico. Cerca de 11 milhões de africanos foram levados para a América, e muitos não sobreviveram, ao passo que cerca de 13 milhões foram levados como escravos para o mundo árabe. Uma vez mais, foram os ingleses, impulsionados por pessoas cujo coração havia sido transformado por Cristo, que enviaram seus navios de guerra para o golfo Pérsico com o propósito de pôr um fim a isso.

A resposta de Carson fazia sentido, não apenas historicamente, mas essa também tinha sido minha própria experiência. Por exemplo, conheci anos atrás um executivo tremendamente racista que tinha uma atitude superior e arrogante em relação a qualquer pessoa de outra cor. Ele raramente se esforçava para esconder seu desprezo pelos afro-americanos, deixando que essa bile preconceituosa transbordasse em piadas cruéis e observações cáusticas. Não havia argumento capaz de fazê-lo mudar suas opiniões repugnantes.

Foi então que se tornou seguidor de Jesus. Observei surpreendido como suas atitudes, perspectivas e valores iam mudando com o passar do tempo, à medida que seu coração era renovado por Deus. Por fim, ele se deu conta de que não poderia abrigar nenhuma indisposição em relação a quem quer que fosse, uma vez que a Bíblia ensina que todas as pessoas foram feitas à imagem de Deus. Hoje posso dizer com toda a sinceridade que ele é verdadeiramente solícito e aberto às pessoas, inclusive às que são diferentes dele.

Não foi a lei que o transformou. O raciocínio não o modificou. Apelos emocionais não o mudaram. Ele conta a todos que Deus o transformou de dentro para fora, de um modo decisivo, completo e permanente. Esse é apenas um exemplo dentre muitos. Eu vi o poder do evangelho sobre o qual Carson estava falando: o poder que transforma corações rancorosos e vingativos em filantropos, egoístas empedernidos em doadores misericordiosos, amantes do poder em servos generosos e gente que explora o próximo, por meio da escravidão ou de outra forma de opressão, em gente de coração acolhedor.

Isso vai ao encontro do que o apóstolo Paulo diz em Galatas 3.28: "Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus".



[1] Morton Smith, Biblical arguments for slavery, Free Inquiry, Spring, 1987, p. 30.

[2] Thomas Sowell, Race and culture, New York, Basic, 1995.



Josimar Bianchi resume, na música do João Alexandre - Todos São Iguais

3 comentários:

  1. Se vc diz: sou um seguidor de Jesus,então deve seguir TUDO o q Jesus defendia e fez ou então vc é apenas um fã dele.Até Deus entra nisso,pois ele destruiu cidades,matou milhões de pessoas afogadas,deixa o mundo na fome e na pobreza e ainda dizem q ele é bom.Compara Deus com Hitler,pois Hitler deu emprego para pessoas e matou menos pessoas q Deus.

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  2. Esse seu comentário não tem relação com o tema. O que tem a ver destruição de cidades e dilúvio com o tema "Jesus e a escravidão"? Seja mais claro, por favor.

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  3. A história mostra Apolônio, que foi muito mais superior a Jesus moralmente, ele foi contra a escravidão, e fez também os mesmos milagres como Jesus fez, ressuscitou mortos e curou pessoas, e seu amor pelos animais era tanto, que ele era vegetariano, ao contrário de Jesus. Más o mundo ainda não estava prepara para alguém de moral tão elevada, então escolheram Jesus para ser o Messias. Infelizmente.

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