
Auschwitz foi criado em 1940 como um campo de detenção para poloneses. Em 1941, uma extensão foi construída para judeus. O real propósito do campo era extermínio humano. Foi um extermínio bem pensado e sistemático com câmaras de gás no fim do caminho. Abrindo o livro, pensei em Auschwitz, olhei para uma foto de três menininhas indefesas. [1] Elas estão olhando para a câmera, apenas alguns minutos antes de serem conduzidas á morte na câmara de gás. Se eu tivesse estado lá, será que teria tido a audácia de lhes dizer: “Como cristão, penso que não temos responsabilidade alguma”? Abaixo da foto está a legenda: “KL Auschwitz II – Birkenau. Mulhereres e crianças judias da Hungria esperando a morte nas câmaras de gás.”

A foto foi tirada por um soldado da SS em 1944. Será que ele cresceu numa família cristã? Ele ia à igreja e aprendia a história de Jesus? Quando pressionou o botão, ele pensou que essas crianças judias tinham que pagar porque eram assassinas de Cristo? Para essas garotinhas não havia escolha, somente um caminho direto para a morte, simplesmente porque eram judias. O oficial que tirou a foto não era um amigo, mas como as meninas poderiam imaginar que alguns minutos depois ele as forçaria a entrar na câmara de gás – simplesmente porque eram judias?
Em 1979, durante sua visita a Auschwitz, o papa João Paulo II disse que o campo foi construído sobre a negação da fé em Deus e na humanidade, sobre uma violação total do amor, sobre o ódio e o desprezo da humanidade em favor de uma ideologia louca.[2] É verdade que essas atrocidades aconteceram na Europa, em países de forte tradição, cultura e história cristãs. Auschwitz não aconteceu em países sob o regime soviético. Auschwitz não aconteceu em países muçulmanos. Por que?
Em seu artigo “The Holocaust and the Christians”
[3], Franklin H. Littell escreveu:
“Um fato importante, frequentemente esquecido tanto por estudiosos cristãos como por judeus em discussões sobre os cristãos e o holocausto, está aqui: a ‘cristandade’ em que aproximadamente seis milhões de judeus foram assassinados por ‘nações cristãs’ foi uma ‘cristandade’ com uma religião legalmente estabelecida, embora seu apelo e autoridade estivesse em acentuado declínio.”
Auschwitz era o clímax de uma história profunda e de séculos de discriminação, perseguição e massacres. Os nazistas não inventaram o anti-semitismo. O anti-semitismo latente e generalizado meramente ajudou sua ideologia a crescer. Nos países nominalmente cristãos os judeus eram vistos como um problema. Os nazistas vieram com sua solução – a solução final. Em vez de discriminar, perseguir e matar de vez em quando, eles queriam resolver o problema de uma vez por todas. Planejavam eliminar os judeus. Certamente, eles não eram essencialmente cristãos, mas fizeram uso do “anti-semitismo cristão” que existia.
Em seu livro Origins of anti-Semitism[4], John G. Gager questiona “se o próprio cristianismo era, em sua essência e desde o seu início, a fonte primária de anti-semitismo na cultura ocidental”. No início, os cristãos eram judeus. Então tornaram-se anti-judeus. R. Ruether escreveu: “Para o cristianismo, o anti-judaísmo não foi meramente uma defesa contra ataques, mas uma necessidade intrínseca de auto-afirmação cristã.”[5]
O anti-judaísmo se tornou um fato no 4º século. Em 386 d.C., João Crisóstomo fez oito sermões que atacaram o judaísmo na cidade de Antioquia. Resumindo, ele disse: "O que mais posso dizer? Brutalidade, ganância, deslealdade aos pobres, roubos, manutenção de tavernas. O dia todo não seria suficiente para falar de todas essas coisas.”[6]
Jules Isaac, historiador francês que perdeu sua família no Holocausto, escreveu: “Eu digo e mantenho que a destruição de Israel não assumiu um caráter verdadeiramente desumano até o quarto século d.C. com a vinda do Império Cristão.”[7]
E as coisas pioraram com as Cruzadas e a Inquisição. Em Cracóvia, em 1412, um padre anunciou que os judeus haviam assassinado uma criança judia. Esse anúncio foi seguido por um massacre em grande escala, espoliação e a queima de propriedade judia.[8]
Em seu livro Boire aux sources, Jacques Doukhan mencionou três pontos de referência na história do anti-semitismo:
1) O século 4, a data de nascimento. Os judeus são chamados de “assassinos de Cristo”, são acusados de “deicídio”;
2) O século 9, com as Cruzadas;
3) Os séculos 19 e 20 como sua conotação racial.
Doukhan descreve o desenvolvimento histórico do anti-semitismo por meio de um sistema cristão de perseguições que resultaram no incrível Holocausto.[9]
Como cristãos, temos que reconhecer nossa responsabilidade nesse genocídio. Não podemos simplesmente dizer “Não fui eu! Não tenho nada a ver com isso!” Em alguma parte eu tenho responsabilidade hoje. Concordo com Littell quando ele escreve: “Na verdade, a forma como os cristãos se relacionam com o povo judeu depois de Auschwitz não é uma questão de simples preconceito: tornou-se uma questão de salvação.”[10]

Famosa foto de uma mulher e três crianças judias caminhando para a câmara de gás
CONTINUA...
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[1] Teresa and Henryk Swiebocki, Auschwitz: Lês voix des ténèbres (Editions Parol, Carcovic, Pologne), p. 56.
[2] Ibid., p. 5.
[3] Franklin H. Littell, “The Holocaust and the Christians”, Journal of Church and State 41, no. 4, (Outono de 1999): 733.
[4] John G. Gager, The Oringins of Anti-Semitism (Oxford and New York: Oxford Universtity Press, 1983), p. 13.
[5] R. Ruether, Faith end Fraticide: The Theological Roots of Anti-Semitism (New York: Seabury Press, 1974), p.3.
[6] Ibid., Verus Israel, 1.6, 1.7.
[7] Littell, p. 728
[8] Nechama Tec, When the Light Pierced the Darkness (Oxford and New York: Oxford University Press, 1986), p. 147.
[9] Jacques Doukhan, Boire aux sources (em Sdt, Dammarie-les-Lys, France, 1977), p.51.
[10] Littell, p. 728.