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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Contra o relativismo



por Luiz Felipe Pondé


O que você faria se estivesse a ponto de assistir a um ritual de antropofagia? Interromperia (sem risco para você)? Ou deixaria acontecer em nome do relativismo cultural (essa ideia que afirma que cada um é cada um, que as culturas devem ser respeitadas em sua individualidade e que não podemos compará-las)?

No primeiro caso, você seria um horroroso descendente dos "jesuítas"; no segundo você seria um relativista chique. Sempre suspeitei que esse papo relativista fosse blablablá. Funciona bem em aula de antropologia, em bares, em parques temáticos e lojas de curiosidades. É evidente que "jesuítas" de todos os tipos fizeram horrores nas Américas. Todo adulto bem educado sabe que é feio condenar cultos à lua ou à chuva. Mas há algo no relativismo cultural que me soa conversa fiada: o relativismo cultural morre na praia quando você é obrigado a conviver com o Outro. E o "Outro" nem sempre é legal.

Se você aceita a antropofagia em nome do respeito à "cultura", aceita implicitamente a ideia de que o valor da vida humana seja subordinado à "cultura". A vida humana não tem valor em si. Todo estudante de antropologia sabe recitar esse credo. Quando confrontado com dilemas como esse, o relativista diz que se trata de uma situação meramente hipotética (hoje não existe mais antropofagia). Mas a verdade é que quando o relativista diz que a antropofagia é hoje quase nula, e, portanto, esse dilema não tem "validade científica", está literalmente correndo do pau porque "alguém" acabou com a antropofagia, não? Por que a antropofagia "acabou"?

Algumas hipóteses: 1) os antropófagos foram mortos por gripes ou em batalhas; 2) foram convertidos pelos horrorosos "jesuítas" e seus descendentes; 3) descobriram formas mais fáceis de comer e rituais que deixam as pessoas (isto é, os Outros) menos irritadas e com menos nojo. É importante conhecer o "lugar" da antropofagia nas religiões dos canibais, mas isso é apenas um "dado" antropológico. Uma descrição de hábitos (ruins). Mas o relativista tem que correr do pau mesmo, porque seu credo funciona bem apenas nas conversas de salão. A vida é sempre pior do que as festas. Relativistas culturais são, no fundo, puritanos disfarçados, gostam de "aquários humanos".

Os seres humanos são culturalmente promíscuos, e "a cultura" sem promiscuidade (trocas, misturas, confusões) só existe nos livros. Use internet, televisão, celulares, aviões e estradas, faça sexo ou guerra, e o papo do relativismo cultural vira piada. Na realidade, as pessoas lançam mão do argumento relativista somente quando lhes interessa defender a "tribo" com a qual ganha dinheiro e fama. O problema com o debate sobre os índios (ou qualquer outra cultura considerada "coitada") é a mitologia que ela provoca. Se, de um lado, alguns falaram dos índios (erradamente) como inferiores, bárbaros ou inúteis, por outro lado, os que "defendem" os índios normalmente caem no mito oposto: eles são legais e só querem viver "sua cultura", e eles não são "capitalistas" como nós, e blablablá. Índios gostam de poder como todo mundo, vide os índios "conscientes de seus direitos" devorando computadores, celulares e internet no Fórum Social, em Belém -ou ficam na idade da pedra mesmo e precisam que o Estado os defenda do mundo.

As culturas mais bem-sucedidas são predadoras e seduzem as mais fracas (ser mais bem-sucedida não implica ser legal). Por que levar medicina científica (invenção dos "opressores") para as aldeias? Não seria contaminação "cultural"? Vamos ou não brincar de "curandeiros"? Que tal abraçar árvores? Se você é católico e quer ser fiel aos seus princípios, você é um retrógrado; se você quer viver no meio da selva (com direitos adquiridos porque você é de uma cultura "coitada"), você é apenas uma tribo com direito a integridade cultural. O conceito de cultura é quase um fetiche do mercado das ciências humanas. Não que não existam culturas, mas o conceito na sua inércia preguiçosa só funciona no laboratório morto da sala de aula ou do museu. A vida se dá de forma muito mais violenta, se misturando, se devorando.

Nada disso é "contra" os índios, mas sim contra o relativismo como ética festiva. O oposto dele não é o obscurantismo, mas a dinâmica da vida real. O relativismo é um (velho) problema filosófico e um "dado" antropológico. Um drama, e não uma solução.


Extraído do Paulopes

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Defesa prática do cristianismo integral

O cristão deve harmonizar os vários aspectos de sua vida intelectual a fim de se tornar uma pessoa integral, não-fragmentada. Estamos escrevendo sobre isso desde o inicio desse blog.

No entanto, algumas objeções tem sido feitas por ateus, cristãos e outros. Alguns sugerem que a pessoa não deve misturar suas convicções religiosas com suas convicções acadêmicas. Outros sugerem que a ciência é o padrão pelo qual se julga a teologia e a filosofia, e que a religião fica livre para “pensar” apenas nas áreas onde a ciência ainda não tem nada a dizer.

Não vamos aqui analisar e refutar cada objeção levantada. Mantemos nossa posição a favor da coerência: não se pode acreditar numa coisa na igreja e em outra na sala de aula, no escritório ou no consultório.

Um leitor sugere a “suspensão do juízo como heurística”, o que parece uma boa idéia pois muitas pressuposições se revelam falsas e ilógicas quando confrontadas. Podemos até abrir mão de nossas pressuposições quando fazemos exercícios mentais numa discussão. O cristão pode raciocinar como um ateu a fim de fazer especulações filosóficas e científicas. A dúvida e o ceticismo metodológico tem espaço dentro da cosmovisão cristã.

No entanto, ninguém leva a vida real absoluta e consistentemente desse jeito. Nem mesmo os que fizeram tais objeções ao que escrevemos aqui. Todos partem de um ponto, um primeiro princípio, a fim de raciocinar e buscar o conhecimento. Ninguém faz "suspensão do juízo" completa e absolutamente, pois cairia num vórtice de irracionalidade.

Diante de questões cientificas teóricas, éticas e decisões que envolvam conceitos filosóficos, os críticos desse blog não praticam coerentemente o que pregam: jamais se permitiriam abrir mão totalmente de suas pressuposições.

Isso pode ser observado quando um psicólogo age como se livre arbítrio existisse de fato. Bem, para ser coerente com a sugestão dos relativistas, ele deveria tentar agir também como se o determinismo (genético, condicionamento) fosse verdade, o que traria uma confusão e comprometeria sua carreira. Na pratica, ele tem uma pressuposição (livre arbítrio e responsabilidade moral existem) e trabalha consistentemente sobre ela.

Os políticos deveriam abrir mão de suas convicções e tentar outras abordagens, até mesmo as mutuamente contraditórias. A crença em princípios como justiça individual e meritocracia poderia ser “suspensa” a fim de se experimentar as idéias de Hugo Chavez e Idi Amim. Mas na pratica, o político tem suas pressuposições e trabalha consistentemente sobre elas.

O pedagogo pode concordar com os relativistas e achar o discurso bonito, mas ele não matricularia seus filhos em qualquer instituição de ensino, sem se preocupar com a filosofia de educação e a abordagem pedagógica daquela escola. Na pratica, o pedagogo tem suas convicções sobre a natureza humana, a natureza da verdade e do conhecimento. Ele tem suas pressuposições e não fica “suspendendo o juízo” a cada inicio de ano letivo.

O professor de biologia pode definir o ser humano apenas como um animal membro da classificação Homo Sapiens, mas não age como se os seus alunos, ou seus próprios filhos, fossem apenas isso. Há pressuposições e convicções mais profundas envolvidas em teorias sociológicas, econômicas, psicológicas, etc.

A própria ciência assume que existe um universo organizado e inteligível, que os sentidos e a mente são confiáveis, que as inferências indutivas são legitimas, que a verdade existe e pode ser conhecida, etc. Essas pressuposições são assumidas, não-provadas, e ninguém “suspende o juízo” a cada vez que entra no laboratório ou na sala de aula.

O próprio relativista tem convicção de que o relativismo é legitimo, e faz suas objeções ao cristianismo baseado nas suas firmes pressuposições relativistas!

Portanto, o discurso relativista cai num poço de irrelevância tanto na vida pratica quanto no mundo estritamente racional. Então por que cristãos ainda insistem em aceitar passivamente as sugestões dos relativistas e até mesmo defende-las?

Todo mundo tem suas convicções e as defende sobre a plataforma de suas pressuposições. Só o cristão alienado é que não percebe que age como irracional ao se juntar ao coro dos céticos e relativistas "convictos" que sugerem a "suspensão do juízo" cristão enquanto mantem o seu próprio juízo intacto.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Discuta as grandes questões da vida

No meio do debate entre teístas e ateístas, entre criacionistas e evolucionistas, percebo um fenômeno: ou a discussão gira em torno do “científico” (artigos, pesquisas, autores, etc) ou em torno do “filosófico” (as premissas que proporcionam interpretações diferentes para um mesmo dado).

Ateus e evolucionistas seqüestraram a discussão cientifica: eles acham que dominam essa área, definem termos, determinam as regras do debate e julgam quais argumentos são válidos ou não usando suas próprias pressuposições como padrão. O resgate da ciência não passa apenas pela discussão científica, a grande batalha se trava no campo filosófico.

A propaganda anda tão ao gosto de Goebbels que já andam confundindo ciência com ateísmo e ciência com naturalismo filosófico, e fazem ar de “que absurdo!” quando você discorda e mostra que “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa” (como diriam os grandes filósofos-comentaristas de futebol na tv).

Tenho percebido que quando o cristão conduz sutilmente a discussão para o campo filosófico, o cético se sente desconfortável a medida em que se aproxima das questões metafísicas. Isso se deve ao fato de que o acaso e falta de propósito, o relativismo moral ilimitado e a desconcertante "certeza" de que o universo e a vida não têm nenhum significado nem propósito não dão terreno sólido a ninguém.

Eles não gostam de discutir as grandes questões metafísicas. Exatamente por isso: discuta questões filosóficas.

Mas para isso, você precisa conhecer a sua cosmovisão. Cristianismo não é a sua religião de fim de semana, é a sua visão de mundo. Não existe nenhuma área da sua vida em que o cristianismo não deva se meter. Enquanto continuarmos dividindo nossa vida em compartimentos estanques, o cristianismo sera apenas um detalhe místico e estranho da sua vida.

Nos meios academicos ouvimos frases como "O professor X é crente, mas é muito inteligente", ou "eu sou cristão, mas no laboratório eu faço ciência como um ateu". Por que insistimos em aceitar (e por vezes colocar) esses "mas" nessas frases?

Deixe de ser apenas um religioso em pedaços, e torne-se um cristão inteiro, de verdade. Viva o cristianismo em imersão total. Desse modo, você terá mais condições e mais autoridade para levar os descrentes a refletirem sobre as grandes questões da vida: as questões metafisicas.

Resumida aqui na incrível composição de Mario Jorge Lima e Lineu Soares: "Escolhi acreditar"

sábado, 23 de janeiro de 2010

Pós-modernos respondem: o que você pensa da igreja?

Perguntaram a 20 pessoas de conceitos pós-modernos: "O que você pensa da igreja?"
Veja as respostas.


O vídeo é muito bom.
Chutaram o balde no final ao escreverem "vamos deixar o cristianismo de lado".
No entanto, vale fazer boas reflexões sobre as respostas dadas.

Como igreja, não devemos nos deixar orientar apenas pela opinião das pessoas sobre nós. Mas ouvir o que os "de fora" pensam de nós pode nos ajudar a diagnosticar erros e pecados imperceptíveis aos olhos dos que estão "dentro".