Mostrando postagens com marcador Música sacra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Música sacra. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Garlock e a tricotomia-dualista na música

Você já ouviu (ou leu) que, na música, a melodia afeta o espírito, a harmonia afeta a mente, e o ritmo afeta o corpo? Eu já. Várias vezes. E fui atrás da fonte de tão maravilhosa informação. Encontrei algumas, mas a mais proeminente foi Frank Garlock (coincidentemente, perdoem-me os fãs dele, mais uma das fontes de Bacchiocchi).

Frank Garlock é um autor de livros e palestrante conhecido nos Estados Unidos por combater fervorosamente a música cristã contemporânea. Numa análise parcial de seus vídeos e do livro “Music in the balance” não encontramos nada novo. Ele repete conceitos que escritores como Bob Larson, David Noebel e o próprio Garlock já vinham insistentemente escrevendo desde os anos 60.
Mas em Garlock encontramos um conceito que tem se alastrado na música adventista: a tricotomia. [1]

O conceito tricotômico na música
Em seus livros, Garlock sustenta a idéia de que a natureza triúna da música (melodia, harmonia e ritmo) corresponde à natureza do homem (espírito, alma ou mente, e corpo). Para ele, nossa natureza básica é o corpo, que é afetada pela qualidade básica da música: o ritmo. A harmonia afeta a nossa mente. E a parte mais nobre da música, a melodia, afeta o nosso espírito. [2]

Essa analogia é usada para condenar certos tipos de músicas rítmicas, já que o ritmo alimentaria a natureza carnal. O problema é que não há apoio bíblico para essa analogia. Ela parece fazer sentido e soa bem “espiritual”, mas, como veremos, flerta com a heresia gnóstica e não tem nenhuma credencial bíblica.

Nós adventistas não cremos na tricotomia. A nossa visão bíblica sobre o homem é monista (ou holística, integral), na qual o ser humano é uma unidade indivisível. Mas, esquecendo-se disso, Bacchiocchi repete o conceito de Garlock assim:

“Em seu livro Music in the Balance, Frank Garlock e Kurt Woetzel apresentam um conceito que era novo para mim, mas que achei ser digno de consideração. Eles explicam graficamente que:

MELODIA responde ao ESPÍRITO
HARMONIA responde à MENTE
RITMO responde ao CORPO” [3]

Em seus livros, sermões e palestras em vídeo, Garlock usa a palavra “mente” e a palavra “alma” relacionadas à harmonia. Na sua analogia, alma e mente parecem representar a mesma coisa.[4] Certamente o significado de "espírito, mente/alma e corpo" para Garlock não é o mesmo sentido para Bacchiocchi. Pelo menos não deveria ser.

Bacchiocchi completa: “A característica que define a boa música é um equilíbrio entre seus três elementos básicos: melodia, harmonia e ritmo.”[5] Mas logo após defender esse “equilíbrio”, ele se contradiz colocando os elementos da tricotomia numa escala de prioridades, como veremos a seguir.

O dualismo na música
Simplificando, o dualismo é uma idéia pagã e antibíblica que vê a natureza humana como material e espiritual. O material é o corpo, temporário, essencialmente mau. O espiritual é a alma ou a mente, que é eterna e boa.[6]

Veja a escala de importância na visão tricotômica do ser humano de Garlock:

1. Espírito – a parte mais importante do homem.
2 – Alma/Mente – a próxima em importância
3. Corpo – o menos importante[7]

Isso é um flerte com o dualismo: o corpo é “menos” e o espírito é “mais”.
E Bacchiocchi vai atrás de Garlock nessa idéia: “a ordem das prioridades da vida cristã com o espiritual em primeiro lugar, o mental em segundo e o físico em terceiro, deveria ser refletida na própria música.(...) A ordem apropriada entre os aspectos espirituais, mentais e físicos de nossa vida cristã deveria refletir-se na música cristã.”[8]

Eu até entendo o que ele quer dizer, mas a sua justificativa é inacreditável:

“A parte da música à qual o espírito responde é a melodia. Isto é sugerido por Efésios 5:18-19, onde Paulo admoesta os crentes: “mas enchei-vos do Espírito, falando entre vós em salmos, hinos, e cânticos espirituais, cantando e salmodiando”.[9]

Não entendi. Esse texto não diz que a melodia é a parte da música que afeta o espírito. Talvez ele esteja sendo influenciado por Garlock, que prefere a tradução da King James, onde o grego ‘psallo’ é traduzido “fazendo melodias”. Mas a Bíblia relaciona 'psallo' à mente também (1 Co 14:15). E não há porque preferir a tradução “fazendo melodia” em Ef 5:19.

Sobre ‘psallo’ em Ef 5:19, o Comentário Bíblico Adventista diz: “'tocar um instrumento', 'cantar hinos'. Esta palavra pode, portanto, referir-se à música instrumental ou ao canto em geral. Como já se falou de “cânticos”, alguns pensam que psallo se refere ao primeiro; mas outros sustentam que no NT esta palavra significa apenas ‘cantar’.”

Além disso, o conceito é musicalmente falho: fazer melodia requer ritmo.

E ele continua:
“A parte da música à qual nossa mente responde é a harmonia. Isto acontece porque a harmonia é a parte intelectual da música. Praticamente qualquer pessoa pode produzir uma melodia, mas é necessário um extenso treinamento musical para escrever e compreender os vários acordes (partes). Uma harmonia que soe bem só pode ser arranjada por um músico treinado. A harmonia, como a palavra sugere, harmoniza a melodia e o ritmo.[10]

Aqui não há citação bíblica, mas em Garlock nós encontramos o texto de 2 Co 10:5 que também não diz que a harmonia é a parte de música que afeta a mente. São afirmações soltas, que surgem ‘ex-nihilo’, sem fundamentação bíblica alguma!

E aqui também há uma falha musical: existem ritmos complexos e melodias que requerem intenso treinamento musical, assim como existem harmonias simplórias. Existem pessoas que conseguem fazer harmonia mas não conseguem reproduzir um ditado rítmico intrincado. A coisa não é “preto-no-branco” como querem Garlock e Bacchiocchi.

E finalmente, o ritmo:
“A parte da música à qual o corpo responde é o ritmo. A palavra ritmo deriva da palavra grega reo, que quer dizer “fluir” ou “pulsar” (João 7:38). O ritmo é o pulso da música, que encontra uma correspondência analógica com o pulso cardíaco.”[11]

O nosso corpo responde a muitos outros elementos musicais. O próprio Bacchiocchi cita vários exemplos de uso da música em terapias, anestesia e tratamentos em geral. Certamente isso tudo não acontece só com ritmo, mas com a música como um todo.

E fechando o raciocínio, novamente aparece a escala de prioridades de Garlock: “O cristão com uma ordem e equilíbrio escriturísticos em sua vida enfatiza em primeiro lugar o espiritual (Mateus 6:33), o intelectual ou emocional em segundo (II Coríntios. 10:5) e por último o físico (Romanos 13:14).”[12]

Nós adventistas cremos numa visão holística (ou monista) do ser humano. Ensinamos uma reforma de saúde justamente por crermos que cuidar do corpo à luz da Palavra também é “buscar primeiro o reino de Deus” (Mt 6:33). O corpo físico, na teologia adventista, tem muita importância, pois o ser humano é uma unidade indivisível. Há aqui uma confusão de termos. Os aspectos espirituais tem sim precedência sobre os terrenos, temporais. Mas o nosso corpo não deve ser classificado nessa sub-categoria, “menos”, desprezível.

Se Bacchiocchi não queria defender o dualismo para combater o ritmo, ele foi, no mínimo, confuso. E para refutar Bacchiocchi, ninguém melhor que... ele mesmo.

Bacchiocchi contra Bacchiocchi
Como aconteceu no caso do Salmo 150 , aqui também existe um caso de “hermenêutica por conveniência”. Bacchiocchi apresentou essa visão tricotômica/dualista do ser humano em “O cristão e a música rock”, mas estranhamente ele não defende essa visão do ser humano em sua excelente obra “Imortalidade ou ressurreição”. Veja:

“Tanto o corpo quanto a alma, a carne e o espírito são uma unidade indivisível”[13]
“A ênfase bíblica é sobre a unidade do corpo, alma e espírito, cada um sendo parte de um organismo indivisível”.[14]
“... o ato de criação material deste mundo, inclusive a do corpo humano, é ‘muito bom’ (Gn 1:31). Não há dualismo nem contradição entre o material e o espiritual, o corpo e a alma, a carne e o espírito, porque fazem todos parte da boa criação de Deus”.[15]

Essa sim é a visão adventista. Bacchiocchi denuncia: “... o ponto de vista dualístico clássico tem fomentado o cultivo da alma à parte do corpo...”[16]. E descreve a dedicação primária à vida contemplativa (vida espiritual) e o desligamento da vida secular como algo contrário à perspectiva bíblica, um dos resultados do dualismo.[17]

Uau! Que mudança de opinião! Nem parece o mesmo escritor... em qual dos dois autores devemos acreditar? Se somos unidade indivisível, não faz sentido a teoria tricotômica/dualista, pois somos afetados igualmente.

Ao defender o conceito holístico-bíblico da natureza humana, Bacchiocchi nos desafia a “considerar positivamente tanto os aspectos físicos quanto espirituais da existência”, pois “a maneira como tratamos nosso corpo reflete a condição espiritual de nossas almas”, e “a poluição física é também uma poluição espiritual.”[18] Corretamente, ele diz que “um bom programa de educação física deve ser considerado tão importante quanto os programas acadêmicos e religioso”.[19]

Ellen White concorda com essa segunda visão de Bacchiocchi, ao defender o “desenvolvimento harmônico de todas as faculdades”[20], e ao descrever a educação como “desenvolvimento harmônico das faculdades físicas, intelectuais e espirituais”[21]. Isso claramente contradiz a ordem das prioridades cristãs de Bacchiocchi em sua obra sobre música: “espiritual em primeiro lugar, o mental em segundo e o físico em terceiro”. Na vida do cristão tudo está relacionado ao que chamamos de “espiritual”.[22]

O físico não é mau
Referindo-se ao corpo, Garlock diz que “o ritmo… alimenta a satisfação própria, a parte egoísta do homem”[23]. Além de ser uma afirmação solta, sem fundamentação, ela traz uma idéia dualista, mais influenciada pelo gnosticismo (o mal reside no físico) que pelo cristianismo bíblico.

E ao afirmar que o ritmo é o que causa respostas físicas, Garlock diz uma verdade parcial: outros aspectos da música também provocam reações físicas.

Além disso, a Bíblia não sugere que reações corporais sejam inerentemente erradas na adoração. De fato, a Bíblia relata positivamente as posturas, gestos e movimentos corporais da adoração hebraica (prostrar-se com o rosto em terra, ajoelhar-se, levantar as mãos, danças, etc). Obviamente há aqui questões culturais envolvidas.

Ao abordar ritmos que ele mesmo aprova, Garlock diz “não há nada errado com a música que tem um efeito físico...”, ao falar dos efeitos da marcha. Isso é um exemplo dessa argumentação inconsistente, incoerente, que afirma uma coisa aqui e então afirma o contrário algumas páginas depois.

Contrariando o seu mentor, Bacchiocchi afirma em “Imortalidade e ressurreição” que o “corpo físico não é mau”[24] e que “o Antigo Testamento não distingue entre os órgãos físicos e espirituais.”[25] Um mesmo autor, duas obras, dois pensamentos conflitantes.

O dualismo de Daniel Spencer
Esse argumento dualístico encontrou eco na igreja adventista em vários artigos e palestras. Ele está presente também na palestra sobre música da série “A Guerra dos sentidos”, de Daniel Spencer.

Spencer admite que usou Garlock como uma das fontes para as suas palestras (clique na imagem ao lado) e vai um passo além do raciocínio de Bacchiocchi e diz:

“Eu estou lhe apresentado aqui um critério: Nós somos espírito, mente e corpo; a música é melodia, harmonia e ritmo. A melodia é o que estimula nossa parte espiritual, ela deve dominar...”

“O ritmo deve ser suprimido, pq ‘Deus é espírito, e importa que os que O adoram, O adorem em espírito e verdade’; ou seja, tudo no lóbulo frontal, e não na carne, que combate contra o espírito”. Para ouvir, clique abaixo:


Essa é basicamente uma antiga heresia gnóstica dualista. Note que Spencer diz que somos espírito, mente e corpo, que Deus é espírito e é com essa ferramenta que devemos adorá-lO, e não na carne (corpo) - a qual “combate contra o espírito.”

Para os gnósticos e muitos filósofos gregos pagãos dualistas, o espírito é bom e vive aprisionado pelo corpo, que é mau. “No dualismo platônico, a matéria é a fonte e origem do mal”[26], diz o próprio Bacchiocchi. E completa: “A identificação do mal com a matéria tem levado a uma visão pessimista do corpo e da existência física. É lamentável que esse ponto de vista pessimista do corpo tenha influenciado tão fortemente o pensamento e prática cristãos”[27].

Ao fazer coro a Garlock e Bacchiocchi, e relacionar a carne pecaminosa ao corpo, Spencer está dizendo que o corpo deve ser suprimido, pois milita contra o mundo espiritual. Isso soa como cristianismo monástico, medieval.

Porém, na Bíblia, essa carne que milita contra o espírito não é o mesmo que corpo literal, matéria. A “natureza carnal” não é constituída de células em si, mas de tendências pecaminosas. A solução para o pecado não é uma vacina. O mundo físico não é mau, como diziam os gnósticos, pois Deus também o criou, criou tanto nosso espírito quanto nosso corpo e a ambos chamou de bons.

Em versos como esse, a Bíblia apresenta a “carne” como sinônimo de “natureza carnal”, pecaminosa, e não como sinônimo de corpo literal, parte física, como colocou Spencer.

Logo, essa tricotomia humana e divina mostra-se sem aplicação ao que ele quer expor. Ele pretende usar o critério escriturístico, mas o faz distorcendo as Escrituras para que se adequem aos seus critérios.

Utilizando o conceito tricotômico racionalmente
Garlock e Bacchiocchi ensinam que “a característica que define a boa música é um equilíbrio entre seus três elementos básicos: melodia, harmonia e ritmo.” Ou seja, se alguém fizer o solo de um hino a cappella, isso não resultará em “boa música” por faltar a harmonia. Aqui está o problema: a Bíblia diz que os levitas cantavam em “uníssono” (2 Cr 5:13)[28]. Resultado: na avaliação de Bacchiocchi, a música dos levitas não era “boa música” por ser desequilibrada. Um absurdo com o qual nem ele concordaria.

E há erros lógicos nesse conceito. Após dizer que a boa música é a que traz um equilíbrio entre melodia, harmonia e ritmo, Bacchiocchi parte para a acusação: “A música rock inverte esta ordem, fazendo do ritmo o elemento dominante, depois a harmonia e por último a melodia.” O erro está em: se são “equilibrados”, esses elementos estão em pé de igualdade e não existe “ordem” que possa ser invertida.

Ao descrever a dança de Davi no segundo transporte da Arca da Aliança, Ellen White diz que ele acompanhava "em sua alegria o ritmo do cântico" (Patriarcas e Profetas, p. 706). Assim, pelo critério triconômico, essa música rítmica provavelmente era desquilibrada, ruim, carnal. No entanto, Bacchiocchi ensina que isso aconteceu depois de uma suposta reforma musical divinamente inspirada que teria banido os tambores, a dança e modificado a música sacra! É contraditório.

A posição adventista

O ‘Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia’, no capítulo “A doutrina do homem”, após descrever o dualismo, alerta que “alguns dividem a natureza humana em três: corpo, alma e espírito. Para os nossos objetivos, ambas as posturas podem ser abrangidas pelo dualismo.”[29]

E logo após, o ‘Tratado de Teologia’ expõe a visão biblicamente correta: o monismo bíblico, o ser humano como uma unidade, onde “todas as expressões da vida interior dependem de toda a natureza humana”[30].

Dividir a natureza humana em “corpo, alma e espírito” e apresentar o corpo como a parte de “menos importância”, como faz Garlock, e parte a ser “suprimida” como faz Spencer é algo próximo demais do dualismo. Ninguém pode apresentar essas teorias ao nosso povo como se isso fosse “adventismo”, pois não é.

Conclusão
Garlock tem uma visão dualística/tricotômica do ser humano (espírito, alma/mente e corpo). Os adventistas não crêem nisso. Arbitrariamente, Garlock relaciona essa visão com 3 elementos da música (melodia, harmonia e ritmo) e ensina que devemos supervalorizar a melodia e desvalorizar o ritmo. Não há nada na Bíblia que apóie essa idéia.

Mas Bacchiocchi e outros (como Daniel Spencer) lançam mão da idéia de Garlock e a utilizam sem grandes alterações. E alguns adventistas não vêem problema algum e acham linda a teoria dualística/tricotômica de Garlock.

Faça a sua conclusão leitor.

Infelizmente, a discussão sobre música e adoração na igreja adventista ainda acontece na periferia intelectual e teológica. É uma discussão marginal na “terra-de-ninguém”, onde vale tudo: argumentação ilógica, teorias infundadas, heresias misturadas com verdades, citações de lunáticos e místicos em geral, etc. Me parece que só não vale uma coisa: usar as boas e conhecidas regras raciocínio e interpretação bíblica.


por Vanessa Meira e Vanedja Cândido Barbosa


________________________________________
[1] Frank Garlock e Kurt Woetzel, Music in the Balance, p. 57.
[2] Existem vários autores que fazem essa relação sem fundamento. Procurando a fonte de tal informação encontrei o educador musical Edgar Willems, que é citado por alguns desses autores. No entanto, há uma diferença no conceito de Willems: a melodia afetaria o aspecto emocional, não o espiritual. O conceito de Willems é:
Ritmo - vida fisiológica (viver)
Melodia - vida afetiva (sentir)
Harmonia - vida mental (pensar)
[3] Samuele Bacchiocchi, O cristão e a música rock, 150.
[4] Você pode assistir uma palestra com esses conceitos de Garlock on-line aqui: http://www.youtube.com/watch?v=hSGx95YsZEk .
[5] Samuele Bacchiocchi, Imortalidade ou ressurreição, p.10.
[6] Samuele Bacchiocchi, O cristão e a música rock, 129.
[7] Notas do seminário “Symphony of Life”, de Frank Garlock, disponível em http://bayareabaptistchurch.org/index.php?option=com_content&view=article&id=61&Itemid=118 e http://webspace.webring.com/people/ed/davidpwil/SOL3.html
[8] O cristão e a música rock, p. 151 e 152.
[9] Idem, p. 150.
[10] Ibid.
[11] Ibid.
[12] Idem, p. 151.
[13] Imortalidade ou ressurreição, p. 1, 21.
[14] Idem, p. 10.
[15] Ibid.
[16] Idem, p. 18.
[17] Idem, p. 18 e 19.
[18] Idem, p. 21.
[19] Idem, p. 22.
[20] Ellen White, Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes, p. 296.
[21] Ellen White, Educação, p. 13.
[22] A questão é mais profunda e não abordaremos tudo aqui. Mas bastaria, por exemplo, citar Ellen White dizendo que “com a mente servimos ao Senhor” (Temperança, p. 14) para refutar de forma diferente essa escala de prioridades de Garlock. Para uma interessante visão adventista da “espiritualidade”: http://espiritualidade.numci.org/a-nova-espiritualidade-e-espiritualidade-adventista/
[23] Music in the Balance, p. 33.
[24] O cristão e a música rock, p. 49.
[25] Idem, p. 28.
[26] Idem, p. 49.
[27] Idem, p. 49.
[28] http://www.musicaeadoracao.com.br/livros/tensao/2_cap2.htm
[29] Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, p. 239.
[30] Ibid.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

As fontes duvidosas de Bacchiocchi

O que torna uma pesquisa digna de ser citada? Certamente, a credibilidade de suas fontes deve ser um dos critérios. Uma pesquisa rápida sobre as fontes de "O cristão e a música rock" revela que como editor de livros, Bacchiocchi era um ótimo teólogo. Pode parecer perseguição de minha parte. Mas não aguento mais ler e ouvir as mesmas lorotas ditas com ar de respeitabilidade. Conheçam algumas das fontes de Bacchiocchi:

John Diamond
John Diamond é um semi-místico que inventou a “Cinesiologia Comportamental”. Ele defende o uso da acupuntura, terapia com cores, com árvores e com música. Ele acredita que o ser humano tem uma Energia Vital, que pode ser estimulada por tais terapias e que levaria à cura. Você pode ver as terapias místicas de John Diamond em seu site:
http://www.drjohndiamond.com/the-diamond-path-of-life
http://www.drjohndiamond.com/the-works-of-john-diamond-md

Bacchiocchi cita a “Cinesiologia Comportamental” entre os “vários estudos científicos (que) estabeleceram os efeitos negativos da música rock sobre a mente”. (p.140)

O dr. Helio Luiz Grellmann, adventista, em “Cristianismo e terapias alternativas – fisiologia e misticismo” também cita a "Cinesiologia Comportamental" de John Diamond como uma dessas terapias alternativas que os adventistas devem evitar por causa do seu caráter místico (p. 164).
Esse material do dr. Grellmann está disponível em: http://images.melker.multiply.multiplycontent.com/attachment/0/RsBktQoKCnQAAAvXuC81/Cristianismo%20e%20Terapias%20Alternativas.pdf?key=melker:journal:25&nmid=53585980
e
http://www.4shared.com/office/xIQWoK-7/Cristianismo_e_Terapias_Altern.html

A terapia de Diamond e suas ligações com o misticismo oriental também são expostas em “John Ankerberg, Dr. John Weldon, The Encyclopedia of New Age Beliefs ( Harvest House, 1997), p. 399-407.

Bacchiocchi cita euforicamente o livro de Diamond “Your Body Doesn’t Lie”. O título original desse livro era BK: Behavioral Kinesiology. Chega a ser constrangedor imaginar o dr. Bacchiocchi e seus seguidores levando a sério e recomendando uma pseudociência baseada em ocultismo.

Interessantemente, Rebecca Brown, uma ex-satanista que faz sucesso entre os crentes, denuncia a "Cinesiologia Comportamental" como uma prática ocultista, uma das artimanhas satânicas para esse tempo (Vaso para Honra, p. 150). Brown não é uma fonte confiável para mentes sãs. Mas quem acredita em Bob Larson não tem motivos para duvidar de Rebecca Brown...

E o mais curioso vem agora: apesar de combater o rock, Diamond inventou uma terapia com tambores! Isso está em seu livro também “científico” “The Way of the pulse – drumming with Spirit”. O mesmo autor que combateu o rock defende os tambores. Por essa Bacchiocchi não esperava...

Além de Diamond, Bacchiocchi cita outro adepto do ramo místico da cinesiologia aplicada: as pesquisas de Sheldon Deal, “um quiroprático e escritor e que não é, de forma alguma, um velho retrógrado que tenta desmoralizar todo o Rock and Roll em si” (p. 136). As ligações de Sheldon com práticas e filosofias orientais também podem ser facilmente verificadas.

Cinesiologia Aplicada é considerada pseudo-ciência por alguns críticos por causa de suas associações com filosofias e práticas místicas. Você pode ler uma crítica científica á cinesiologia aplicada clicando aqui.

Após ler “O cristão e a música rock”, um leitor desavisado poderia se envolver tranquilamente com essas terapias místicas por causa da seriedade com que Bacchiocchi as recomenda. Para combater a música contemporânea vale tudo: citar um mentiroso caçador de demônios, fundamentalistas histéricos, pseudo-cientistas e místicos. O livro de Bacchiocchi é um amontoado de opiniões concordantes, sem nenhum filtro crítico.

Daniel Skubik
Bacchiocchi cita uma pesquisa com essas palavras: “Os neurocientistas Daniel e Bernadette Skubik fornecem uma explicação resumida de como a batida do rock afeta os músculos, a mente e os níveis hormonais.” (p. 135)

“Em um estudo importante sobre a Neurofisiologia do Rock, os pesquisadores Daniel e Bernadette Skubik enfatizam com impressionante clareza (para cientistas!) o impacto musical da batida do rock.” (p. 133)

Acontece que Daniel Skubik não é neurocientista. Ele tem formação na área de ciências políticas, filosofia e leis. Portanto escreveu sobre algo que está fora de sua área. E esse “estudo importante” nem aparece no seu curriculum, disponível no link: http://www.calbaptist.edu/dskubik/IBpaper.pdf , que também pode ser visto online no site da universidade batista onde ele leciona.

Que profissional não publicaria um "estudo importante" em seu currículum? Infelizmente, essa informação se alastrou pela internet, e até mesmo o erudito Wolfgang Stefani embarcou nessa. Teremos que engolir esse "estudo importante" feito por "neurocientistas" por muito tempo...

David Noebel
Bacchiocchi apresenta Noebel como “um pesquisador médico” (p. 248). As informações biográficas sobre Noebel o apresentam como tendo um Bacharelado em Artes (Hope College em Holland, Michigan) e um Mestrado em Artes (University of Tulsa), na área de Humanas e não em Ciências Médicas. Além disso, ele é descrito como candidato a Ph.D. em filosofia na University of Wisconsin.

Noebel foi um dos primeiros a denunciar o rock como uma arma comunista, argumento que se tronou popular na década de 70, encontrando espaço até mesmo na Revista Adventista (outubro de 79).

Ele acusava os soviéticos de usarem "uma elaborada técnica científica destinada a tornar uma geração de jovens americanos neuróticos através da obstrução nervosa, deterioração e retardamento mental". Olhando o comportamento da atual geração, talvez eu concorde com Noebel na parte do “retardamento”, mas a sua teoria da conspiração é exagerada. Para uma crítica à cruzada anti-rock de Noebel: http://www.wfmu.org/LCD/18/antirock.html.

Outras citações curiosas de Bacchiocchi
Jacob Aranza – Um dos principais divulgadores da paranóia das mensagens subliminares ao contrário (backward masking). Autor de "Backward Masking Unmasked" (1982) and "More Backward Masking Unmasked" (1985).

Ele denuncia o rock como parte de um plano Satânico. Sua fonte: um amigo seu, evangelista anônimo, que se sentou ao lado de um gerente de uma grande gravadora de rock igualmente sem nome em um avião. No decorrer de uma conversa casual, o gerente lhe contou todo esse plano satânico.

O curioso é que Aranza aprova o rock cristão. Para ele, o rock cristão poderia ser útil para salvar a juventude da religião satânica do rock’n roll.

Jeff Godwin – Um fundamentalista, ultra-conservador. Ele faz acusações infundadas e chega a conclusões contundentes a partir de frágeis evidências. Vê o demônio em tudo e em todos. Nem mesmo seus companheiros de luta anti-rock, como Bob Larson, escaparam da acusação de serem satanistas disfarçados. Ele é o lunático do movimento anti-rock.

Deus teria revelado para ele que algumas bandas populares são compostas por demônios encarnados. Ele é ardente defensor da teoria do “ritmo vudu” que supostamente deu origem ao rock. Segundo ele, o ritmo do rock tem o mesmo tempo da batida do coração humano (como se “rock” fosse um único ritmo, com um único andamento...). Para ele, isso hipnotisa e faz lavagem cerebral nos ouvintes para aceitarem a mensagem de Satã.

Naturalmente, Godwin também acredita em mensagens subliminares ao contrário (backward masking). Ele explica detalhadamente como as estrelas do rock invocam os demônios em sessões de gravação para garantir sucesso na venda de discos.

Conclusão
Eu não fiz uma pesquisa exaustiva. Muitas outras celebridades do submundo místico-pseudo-intelectual da música sacra podem estar no livro de Bacchiocchi. Minhas fontes aqui também podem ser questionadas, mas eu não sou uma profissional tentando influenciar a comunidade adventista. Não estou escrevendo um livro-pesquisa e nem tenho a influência que tinha o dr. Bacchiocchi.

A minha dúvida é: como eu, que não sou profissional da música sacra, nem da editoração de livros, nem da teologia, fui capaz de perceber tanta besteira num único livro e muitos profissionais não foram? Como pode “O cristão e a música rock” ter ocupado páginas de nossas publicações e até nossos púlpitos em forma de palestras e sermões?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O Salmo 150 e a linguagem figurada



Para fugir das claríssimas afirmações do Salmo 150 quanto ao uso de instrumentos musicais na adoração, tornou-se popular o argumento de que esse salmo é altamente figurativo, e não deve ser levado em conta literalmente.

Como explica Bacchiocchi:
“Por exemplo, não há nenhuma maneira no qual o povo de Deus, na terra, possa louvar o Senhor “no firmamento, obra do seu poder”. O propósito do salmo não é especificar o local e os instrumentos a serem usados para o louvor durante o culto divino, mas sim convidar a tudo o que respira ou emite som a louvar o Senhor em qualquer lugar. O salmista está descrevendo com linguagem altamente figurativa a atitude de louvor que deveria caracterizar o crente a toda hora e em todos os lugares. Interpretar este salmo como uma licença para dançar, ou tocar tambores na igreja, é interpretar de forma errada sua intenção.” (O cristão e a música rock, p. 33)

Os salmos não contém apenas figuras de linguagem.
Apesar de serem altamente figurativos, os salmos apresentam muitas expressões literais, descrições de acontecimentos históricos, referências literais a lugares, pessoas e objetos. Ao contrário do que sugere o argumento de Bacchiocchi, não há nos Salmos um “8 ou 80” com relação às figuras de linguagem. A poesia é uma mistura de expressões figurativas e literais e não um acumulado de sentenças exclusivamente figurativas.

Figura de linguagem é simplesmente uma palavra ou frase usada fora de seu emprego ou sentido original. A figura de linguagem normalmente aparece numa sentença que não faz sentido quando tomada literalmente. Mesmo um leitor com pouco ou nenhum treinamento em literatura poderia dizer quais são os elementos figurativos e os elementos literais numa poesia.

A frase “Essa menina é uma boneca!” é figurativa. Mas a menina é literal, ela existe. O Salmo 1 usa linguagem figurada quando diz que os ímpios “são como a moinha que o vento espalha”(v.4), mas é literal quando adverte que “os ímpios não subsistirão no juízo” (v.5).

Isso demonstra como figuras de linguagem não são o mundo do “faz-de-conta” que Bacchiocchi descreve. Nos Salmos nem tudo é figurativo, existem elementos literais entre as várias figuras de linguagem e tipos de paralelismo.

Por isso, dizer que “a linguagem figurativa desse salmo não permite uma interpretação literal” é um erro grotesco. E esse erro assume proporções gigantescas quando vem de um teólogo tão experiente como era o dr. Samuele Bacchiocchi.

“Adufe” estaria simbolizando o que?
Há um princípio básico de hermenêutica segundo o qual as palavras devem ser entendidas em seu sentido literal, a não ser que tal interpretação leve a uma contradição ou a um absurdo.(Louis Berkhof, Princípios de interpretação bíblica, p. 87-96)

O significado original do texto é distorcido “quando se interpreta figurativamente uma declaração literal e quando se interpreta literalmente uma declaração figurativa.” (Henry A. Virkler, Hermenêutica Avançada, p. 19.)

Assim, aplicando esse princípio básico no Salmo 150, fica claro que a expressão: “Louvai-o com adufes” não precisa ser entendida como uma figura de linguagem. Ela faz sentido literalmente, pois os hebreus usavam adufes na adoração. Essa é a leitura mais natural do texto.

Aqueles que entendem os “adufes” do Salmo 150 como uma figura de linguagem devem dizer que figura de linguagem é essa. Símile? Metáfora? Alegoria? Além disso, os adeptos da interpretação figurativa dos adufes devem explicar em linguagem literal o que o texto supostamente estaria sugerindo de maneira figurada. O que significa “louvai com adufes”?

Incrivelmente, a resposta para esses “hermeneutas” geralmente é: “Louvai com adufes significa: NÃO usem percussão!”

Que figura de linguagem é essa onde o sentido literal é o oposto do sentido figurado? Ironia? Estariam esses intérpretes sugerindo que o Salmo 150 é um salmo irônico, sarcástico?

Figura de linguagem inadequada?
Ainda que “louvai-o com adufes” fosse figurativo, na ótica de Bacchiocchi essa seria uma figura de linguagem inadequada, pois para ele os adufes não podem ser usados na adoração. Isso nos leva a um fato curioso: o Espírito Santo inspirou o salmista e o levou a usar um elemento pecaminoso como figura de linguagem!

É como se o salmista tivesse escrito ao Senhor que “o teu amor é melhor que um pernil suíno!”, ou “minha alma suspira por ti mais do que o viciado anseia pela cocaína”. Um absurdo, ainda que fosse meramente simbólico.

Como o próprio Bacchiocchi destaca, os salmos usam expressões claramente figurativas, ordenando o louvor “no leito”, “portando espadas”, ou “no firmamento”, mas nenhuma dessas expressões é pecaminosa ou errada, como supostamente seria o “louvai-o com adufes” caso Bacchiocchi estivesse certo. Essa teoria pode ser resumida assim: no Salmo 150 Deus usa figuras de linguagem que fazem apologia ao pecado e que significam exatamente o contrário do que Ele queria dizer.

Devemos “tomar cuidado para não colocar demais exegese nos Salmos, a ponto de achar significados especiais em toda palavra ou frase, onde o poeta talvez não tenha objetivado nenhum.” (Gordon D. Fee e Douglas Stuart, Entendes o que lês? Um guia para entender a Bíblia com o auxílio da exegese e da hermenêutica, p. 177)

Bacchiocchi e sua hermenêutica por conveniência
Para vermos a incoerência metodológica de Bacchiocchi, basta compararmos a pesquisa que ele fez sobre a música com as pesquisas que ele fez sobre outros assuntos. Os métodos e abordagens são diferentes.
Apesar de defender essa leitura figurativa dos Salmos 149 e 150 em “O cristão e a música rock”, em seu livro “Imortalidade ou ressurreição?” (Unaspress, 2007), Bacchiocchi consegue separar claramente o que é figurativo e o que é literal nos salmos (e ele cita muitos salmos).

Por exemplo, quando o Salmo 6:5 diz que na morte não há lembrança do Senhor, Bacchiocchi entende isso literalmente. Quando o Salmo 115:17 diz que os mortos não louvam ao Senhor, Bacchiocchi entende isso literalmente. O fato dos salmos terem sido escritos em linguagem poética não impede interpretações literais de trechos que são claramente literais.

Ao pesquisar sobre a morte, Bacchiocchi consegue distinguir o que é figurativo e o que é literal nos salmos. Aparentemente, ele só não consegue fazer isso quando a discussão é sobre música: nesse caso, tudo é figurativo!

Outro exemplo da “hermenêutica por conveniência” de Bacchiocchi está no fato de ele desrespeitar uma regra básica que ele mesmo destaca em “Imortalidade ou ressurreição?”:

“Para encontrar respostas a essas indagações, tomaremos as Escrituras a fim de examinar todas as passagens pertinentes. (...) Deve-se sempre permitir às Escrituras interpretarem as Escrituras. Passagens que apresentam certos problemas devem ser interpretadas à luz daquelas que são claras. Seguindo tal princípio, conhecido como analogia da fé, podemos resolver as aparentes contradições que encontramos na Bíblia.” (p. 114)

Bacchiocchi ignorou a regra “texto claro interpreta texto obscuro” - Ele dá preferência a uma lista de instrumentos para inferir, imaginar, uma suposta proibição divina à flauta e aos tambores. Ele usa essa inferência para reinterpretar textos claros como os salmos 149 e 150. É uma incrível desobediência à regra hermenêutica.

Bacchiocchi desrespeita a regra “a Bíblia interpreta a Bíblia” – Ao afirmar que as flautas e os tambores ficaram de fora do templo por estarem "associados ao culto pagão”, ele não encontra nenhum apoio bíblico. A Bíblia não afirma isso em lugar algum, e os salmos continuam incentivando claramente o uso de flautas e tambores.

Bacchiocchi não leva em consideração “todas as passagens pertinentes” - A Bíblia tem outras passagens sobre o “estar associado ao paganismo” que foram sumariamente ignoradas em sua pesquisa, como:
- Pagãos usavam, dentre outros instrumentos, harpas e alaúdes (Is 14:11; Ez 26:13; Dn 3:5; Jó 21:12;)
- Incrédulos e bêbados infiéis usavam harpas, dentre outros instrumentos (Is 5:12)
- Prostitutas usavam harpas (Is 23:16)
- Um descendente de Caim é chamado de “pai dos que tocam harpa e flauta” (Gn 4:21).
- A maldição divina sobre a Babilônia mística do Apocalipse inclui menções à harpa, à flauta e aos clarins (Ap 18:22)
Esses instrumentos estão associados ao paganismo mas fazem parte da lista de “instrumentos do Senhor”. Isso torna insustentável a argumentação de Bacchiocchi.

E a dança?
Sempre que se discute o uso de instrumentos musicais no Salmo 150 surge a pergunta: “E a dança? Você está defendendo o uso da dança também?” Não. Eu estou defendendo o uso correto da Palavra de Deus.

Eu nunca entendi a preocupação com a dança. Não temos medo do véu (uma ordem bíblica para as mulheres), mas temos medo da dança. Não temos problema nenhum com as leis bíblicas sobre barba e cabelo, mas trememos diante da dança.

Alguns temem tanto que sugerem que a palavra “dança” não é dança, é “órgão”, ou outro instrumento musical desconhecido. Pode até ser, mas o peso da evidência está a favor da palavra “dança”: é uma tradução linguisticamente correta, e os hebreus dançavam em celebrações religiosas.

Se os adventistas não acham adequadas as manifestações físicas, podem argumentar de maneira diferente, usando a lógica, respeitando as regras de interpretação e sem alterar o texto bíblico. Fazemos isso facilmente com outros assuntos, podemos continuar fazendo no assunto da dança. Só não podemos seguir o “método Bacchiocchi” de fazer exegese com dois pesos e duas medidas.

Conclusão
Vimos quão frágil é o argumento da “linguagem figurada”. Eu não sei o que levou um teólogo tão celebrado a publicar uma obra com argumentos tão fracos como esse. Não sei o que concluir nesse ponto...

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Sob o domínio do medo

Quando as crianças não querem obedecer, é comum ouvir dos pais: “se você não fizer, o velho do saco vai te pegar”. Quando não querem dormir: “A Cuca vai te pegar”.

Essa tática pode funcionar por um tempo. Mas, conforme o indivíduo vai se desenvolvendo, ninguém espera que esse tipo de “incentivo” baseado no medo continue sendo usado.

No entanto, esse fenômeno acontece o tempo todo nas igrejas: o domínio pelo medo. O raciocínio é o seguinte: “se o povo não quer tomar jeito por amor a Jesus, terá que ser por medo do diabo!”

Assim, grosso modo, o método é aplicado a tudo. “Você não quer deixar o refrigerante por princípios de saúde? Ok. Então vire o rótulo da Coca-Cola e leia ‘Alô Diabo’. Esse refrigerante é do demônio irmão!” Aí o crente deixa o refrigerante por medo do diabo, e não por um princípio baseado na Bíblia.

No assunto da música e adoração ocorre o mesmo. Quando o argumento não convence pela lógica, abusa-se de histórias de pactos diabólicos, mensagens subliminares, casos de possessão, etc. E depois é só fazer o apelo, desligar os instrumentos e jogar todos os cd’s na fogueira...

Mas o povo que prega a esperança não pode se sujeitar ao medo. E isso deve obrigatoriamente transparecer em nossa adoração. O clima repressivo, o tom ameaçador, o patrulhamento sem misericórdia deve ceder lugar ao incentivo, a orientação, o discipulado e até a repreensão com brandura.

A música dos "comedores de criancinhas”
A década de 70 foi marcante para a música adventista. O debate sobre a música foi afetado pelo contexto da Guerra Fria. A Revista Adventista foi inundada com artigos sobre música, com insistentes citações de Bob Larson e John Diamond, autores conhecidos por suas abordagens espiritualistas à música.[1]

Foi nessa década que surgiu a primeira versão da Filosofia Adventista de Música (1972), que foi substituído por outro documento em 2004. Quando comparamos as duas versões, fica nítido o caráter controlador da versão de 1972, que falava explicitamente de acordes, estilos e ritmos inadequados. Era praticamente uma lista de “pode x não pode”.

Demorou mais de 30 anos para a Filosofia Adventista de Música ter seu texto mudado. O atual texto é mais aberto, enfatizando princípios de adoração e não acordes e ritmos.[2]

Nesse contexto, em outubro de 79, a Revista Adventista publicou um curioso e amedrontador artigo “Uso comunista da música”, assinado por Melvin Munn. Veja como o pânico se disseminava:

“Os comunistas idealizaram esse plano especialmente para estudantes de escolas superiores, para produzir diferentes graus de neurose artificial e prepará-los para a agitação e precipitar a revolução — agitação e revolução para destruir nossa forma americana de governo e os princípios básicos cristãos que governam nosso modo de vida. (...)” p.7

“Atualmente esta música (rock’n roll) vai ainda mais profundo, dentro do coração da África, onde ela era usada para incitar guerreiros a um tal frenesi, que ao cair da noite os vizinhos eram comidos em panelas canibais. (...)” p.7

“Esta música (rock’n roll) é tão-somente parte do esquema diabólico dos comunistas para fazer os humanos retornarem à selvageria.”p. 7

Numa época em que era popular o argumento que "comunistas comiam criancinhas", nada mais natural que usar isso num artigo sobre música. Isso reflete bem o espírito do debate sobre música na igreja: especulações que apelam ao medo. [3].

Animais míticos
Essa abordagem assustadora também é usada na discussão sobre o uso da percussão na adoração. Esqueça a complicada discussão sobre acústica, volumes e ritmos: basta fazer uma assustadora conexão entre instrumentos de percussão e o sobrenatural que a discussão se resolve!

“O tambor é capaz de estabelecer contatos com os espíritos dos deuses, com as almas dos ancestrais, com os mortos e com os animais míticos.”[4]

Animais míticos? Desde quando os adventistas acreditam em animais míticos? Desde quando os adventistas tem medo de fantasma? Qual será o próximo passo? Adventistas pedindo pastores para “benzerem” suas casas para espantar o “mau-olhado”?

Poderíamos acrescentar itens ao “argumento mítico”: as religiões afro-brasileiras usam flores, água, sal, toalhas e roupas brancas em seus rituais. Isso quer dizer que não podemos usar tais coisas? Podemos decorar nossas igrejas com flores ou isso pode invocar os espíritos da umbanda? Podemos continuar usando toalhas brancas na santa ceia? E roupas brancas nos batismo? O crente pode comer pipoca mesmo sabendo que ela é usada em sessões de descarrego?

Perceba que o argumento mítico amedrontador pode ir longe...

Por que falar tanto do diabo?
Outra coisa que me impressiona no debate musical é o conhecimento que alguns tem da agenda satânica. É curioso como alguns escritores e palestrantes conseguem saber os planos secretos e gostos de Satanás. Como conseguem descobrir? São informações que, para mim, podem dar a impressão de uma certa intimidade com o inimigo.

Que o inimigo está ativo, ninguém duvida. O que eu duvido é que ele esteja envolvido em tudo o que afirmam sobre ele. Já o envolveram inclusive na produção do CD Jovem da igreja adventista: “Para esse fim, satanás já logrou êxito introduzindo a música gospel na igreja, até, nos CDs Jovem.” [5]

Eu tenho alguns CD’s Jovem, mas não consegui localizar em nenhum encarte o nome de Satanás como produtor executivo ou musical. Vi o nome de vários pastores e músicos adventistas. O autor do artigo está sugerindo que esses pastores e músicos foram usados por Satanás. E isso é muito sério.
Alguns pregadores e palestrantes se dedicam a estudar e ensinar o que Satanás está tramando. A desculpa deles é: “estamos numa guerra e precisamos conhecer as táticas do inimigo”. Daniel Spencer (foto ao lado) é um palestrante que adquiriu certa notoriedade no Brasil apresentando uma série de palestras denominada “A Guerra dos Sentidos”.

Quando tive contato com seu material, chamou-me a atenção o tempo dedicado por ele a falar de Satanás e seus planos secretos. Alguém lhe perguntou sobre isso após uma palestra (a partir de 14:30 min, no link: http://video.google.com/videoplay?docid=-6148262566346133974#

E a resposta (17:40 min) dele inclui:

“O objetivo da palestra não é mostrar um diabo vencedor, mas é mostrar um adversário que não pode ser ignorado. E Deus está sendo louvado quando eu faço isso, porque foi Deus quem criou o diabo. Ele criou um ser inteligente.

E o Espírito de Profecia nos diz assim: ‘muitas vezes, até mesmo do púlpito, falamos pouco sobre o diabo, e é necessário entender as táticas do adversário’. Não é necessário ficar estudando e enfiando a cabeça nos livros para entender como é o diabo e todos esses temas. O Espírito de Profecia e a Bíblia desaconselham isso. Mas temos que conhecer o que Deus nos mostra sobre como ele trabalha para não ignorar esse poder.”

Gostaria que alguém encontrasse e me enviasse o texto onde Ellen White afirma isso.
Eu sei que ela diz exatamente o contrário:

"É verdade que Satanás é um poderoso ser; mas, graças a Deus, temos um Todo-poderoso Salvador, que expulsou do Céu o maligno. Satanás se agrada quando magnificamos seu poder. Por que não falar de Jesus? Por que não engrandecer Seu poder e amor?"[6]

"Não é a obra do ministro evangélico dar voz às teorias de Satanás. ..."[7]

"No lugar em que o povo se reúne para adorar a Deus não seja pronunciada nenhuma palavra que desvie a mente do grande interesse central - Jesus Cristo, e Este crucificado. Com as questões colaterais, não nos devemos intrometer. O peso da obra é: Pregar a Palavra."[8]

"Deus pede um reavivamento e uma reforma. As palavras da Bíblia, e a Bíblia somente, deviam ser ouvidas do púlpito."[9]

"Dai ao povo a verdade presente. Falai a verdade. Enchei-lhes a mente com a verdade. Edificai as fortalezas da verdade. E não apresenteis as teorias de Satanás a espíritos que não devem ouvir falar a respeito delas.
O que o povo necessita não é uma apresentação das sedutoras artes de Satanás, mas uma apresentação da verdade como é em Jesus.
Lembrai-vos de que o diabo pode ser servido por uma repetição de suas mentiras. Quanto menos lidarmos com esses assuntos objetáveis, tanto mais puros, limpos e menos manchados estarão nosso espírito e nossos princípios. ... " [10]

"Ao falarmos na força de Satanás, o inimigo consolida mais seu poder sobre nós. Quando falamos no poder do Onipotente, o inimigo é repelido."[11]

Falamos pouco do diabo e seus planos no púlpito? Deveríamos falar mais dele? Deus é louvado quando falamos tanto tempo do diabo? Pregar o plano da Redenção não é suficiente, temos que pregar sobre o plano de Satanás?

Creio que há uma preocupante e crescente onda de interesse em experiências sobrenaturais no adventismo brasileiro.[12]

O problema é tão grave que a igreja mundial teve que tomar um voto incluindo no corpo de crenças fundamentais algo óbvio: Jesus é maior e mais poderoso que todos os demônios! Que tipo de adventista medroso não sabe que Jesus garante vitória sobre os demônios e libertação completa? [13]

No entanto, de nada adianta a igreja mundial enfatizar que “não mais vivemos na escuridão, com medo dos poderes do mal” se as igrejas emprestam os púlpitos para os pregadores do terror especulativo.

Escatologia Especulativa
E o pior é que esse misticismo invade a igreja à luz do dia, disfarçando-se de coisas boas, como “Seminário de Música”, “Seminário Profético” ou “Escatologia”. É impressionante ver como palestras que citam a maçonaria, os iluminati, o satanismo, numerologia, as mensagens subliminares e as supostas infiltrações jesuítas na IASD tem despertado o interesse. E os palestrantes ainda colocam Ellen White para “assinar em baixo” de suas teorias da conspiração.[14]

Desde quando essas coisas fazem parte da escatologia adventista? O que faz parte de nossa escatologia é saber que o espiritismo tem um importante papel a desempenhar. Mas isso não justifica essa onda especulativa que gera sermões e palestras e um desperdício do púlpito.
Infelizmente, alguns nomes de talento se enveredaram no caminho da especulação.

Para citar um exemplo, o dr. Walter Veith, admirado por sua contribuição à causa criacionista, desenvolveu uma série de palestras absurdamente especulativas e amedrontadoras sobre a Nova Ordem Mundial e as Sociedades Secretas e que também aborda o tema da música sacra. Isso acaba lançando sombra em sua credibilidade, o que é ruim para o criacionismo.[15]

Proponho urgentemente um retorno à Bíblia. Se vamos discutir música e adoração, façamos isso à luz da Palavra, e não à luz das teorias medonhas.

Chega de promover palestras sobre Sociedades Secretas, teorias da conspiração, Misticismo Oriental, Nova Era, pactos diabólicos, numerologia, simbologia do mal, satanismo e chamar isso de "escatologia".

Chega de ouvir sobre a Nova Ordem Mundial. Precisamos ouvir e atender à “Velha Ordem Divinal”: “Ide (...) e pregai o EVANGELHO” (Mc 16:15). Transformaram isso em “ide, pregais sobre os planos do diabo.”

A ironia é que essa onda terrorista tem invadido a igreja justamente através daqueles que clamam por uma “identidade adventista”, um retorno aos velhos e bons tempos. Esses temas conspiratórios são apenas um reflexo no adventismo de algo que está na moda no mundo evangélico. E eles tem oradores bem mais impactantes que nós (Daniel Mastral, Rebecca Brown, Josué Yrion, Tio Chico, dentre outros).

Reavivamento e reforma não acontecem com mensagens sobre satanismo e a feiúra do demônio. Segundo Ellen White, "Deus pede um reavivamento e uma reforma. As palavras da Bíblia, e a Bíblia somente, deviam ser ouvidas do púlpito."[16]
______________________________________
[1] Bob Larson foi citado 33 vezes na Revista Adventista. Todas durante a década de 70 (com exceção de duas citações em artigo de 2005).
[2] O voto de 1972 é bem diferente do de 2004. O de 1972, por exemplo, traz a expressão “jazz, rock e correlatos”. O de 2004 não traz. A expressão estava no texto sugerido para o voto de 2004, mas saiu após análise após análise. Aqui está o de 1972: http://www.iamaonline.com/worshipmusic/Guidelines%20Toward%20An%20SDA%20Philosophy%20of%20Music.htm
Aqui está o texto sugestivo para 2004 (ainda com a referência ao "rock"): http://www.adventistreview.org/2003-1541/Music.pdf
Aqui está o atual, no formato final aprovado por voto: http://www.adventist.org/beliefs/guidelines/music_guidelines.html
[3] O adventismo sempre sofreu com esse tipo de “sensacionalismo terrorista”. Desde que abracei o adventismo, tenho ouvido falar de decretos dominicais que supostamente estavam assinados. O medo do decreto e da perseguição causado por histórias especulativas consegue mais reavivamento que a Palavra de Deus. Na verdade, há entre nós um grande número de “decretistas do sétimo dia”: gente que aguarda o decreto dominical com mais ansiedade que a própria volta de Jesus.
[4] Otimar Gonçalves, “As preocupantes implicações do uso dos tambores/bateria na adoração a Deus” http://www.ja.org.br/musica/artigos_tambores.html
[5] Artigo de Sikberto Marks, disponível em: http://www.musicaeadoracao.com.br/artigos/meio/musica_igreja_sikberto.htm
[6] Ciência do Bom Viver, 94.
[7] Mente, Caráter e Personalidade, Vol. 2, 718.
[8] Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, 331-332
[9] Profetas e Reis, 626.
[10] Evangelismo, 624.
[11] Mensagens aos Jovens, 105.
[12] Por isso, e também pelas orientações de Ellen White já citadas, não vejo como positivo o interesse em relatos sobre o submundo do espiritismo e do satanismo, como o de Roger Morneau, Rebecca Brown e Daniel Mastral. Isso normalmente só gera pânico, superstição, demonização exagerada e generalizada, e leva a falsos “reavivamentos” baseados em emoções. Se uma geração inteira de adventistas morre de medo de entidades e espíritos malignos, não será lendo Roger Morneau e assistindo palestras especulativas de Walter Veith que vão superar isso. É lendo e praticando a Palavra que liberta poderosamente!
[13] Crescimento em Cristo - Nova crença fundamental aprovada em 4 de julho de 2005, na 58ª Assembléia da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia. Pela sua morte na cruz Jesus triunfou sobre as forças do mal. Ele subjugou os espíritos de demônios durante o Seu ministério terrestre e quebrou o seu poder e tornou certo o seu destino final. A vitória de Jesus dá-nos vitória sobre as forças do mal que continuam procurando controlar-nos, enquanto nós caminhamos com Ele em paz, alegria, e a garantia do Seu amor. Agora o Espírito Santo mora conosco e nos dá poder. Continuamente comprometidos com Jesus como nosso Salvador e Senhor, somos livres do fardo dos nossos feitos passados. Não mais vivemos na escuridão, com medo dos poderes do mal, ignorância, e a falta de sentido de nosso antigo estilo de vida. Nessa nova liberdade em Jesus, somos chamados a crescer na semelhança de Seu caráter, comungando com Ele diariamente em oração, alimentando-nos de Sua Palavra, meditando nisso e em Sua providência, cantando Seus louvores, reunindo-nos juntos em adoração, e participando na missão da Igreja. Na medida em que nos entregamos ao serviço de amor àqueles ao nosso redor e ao testemunho da Sua salvação, Sua constante presença conosco através do Espírito transforma cada momento e toda tarefa numa experiência espiritual. Razões bíblicas: Salmos 1:1, 2; 23:4; 77:11, 12; Colossenses 1:13, 14; 2:6, 14, 15; Lucas 10:17-20; Efésios 5:19, 20; 6:12-18; I Tessalonicenses 5:23; II Pedro 2:9; 3:18; II Corintios 3:17, 18; Filipenses. 3:7-14; I Tessalonicenses 5:16-18; Mateus 20:25-28; João 20:21; Gálatas 5:22-25; Romanos 8:38, 39; I João 4:4; Hebreus 10:25.)
[14] Para uma análise crítica dessa tendência: http://questaodeconfianca.blogspot.com/2010/05/escatologia-da-conspiracao.html
[15] Uma das teorias conspiratórias de Veith (referentes a adulterações do texto bíblico) mereceu uma refutação do Biblical Research Institute: http://biblicalresearch.gc.adventist.org/documents/Textus%20Receptus%20and%20Modern%20Bible%20Translations.pdf
As palestras especulativas de Veith também foram alvo de crítica publicada na Adventist Review: http://www.adventistreview.org/issue.php?issue=2009-1525&page=27
[16] Profetas e Reis, 626.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

PolêmiCAJÓN


“Haverá gritos com tambores, música e dança…”.

Esse é o texto onipresente nas discussões sobre música. Ele é aplicado indistintamente, sem nenhuma reflexão, sobre qualquer música ou instrumento que desagrade o portador do texto dos "gritos e tambores". Ele é usado inclusive contra quem não usa tambores, como os grupos a capela (!). É curioso o que o fanatismo cego pode produzir.
Recentemente ouvi falar do caso de alguns líderes de uma igreja adventista local que decidiram proibir o uso do cajón nos cultos.
E surgiu uma questão interessante: estritamente falando, o cajón não é um tambor. Tambores são "membranofones", possuem uma membrana esticada que é percutida. O cajón nada mais é que uma caixa de madeira, e poderia ser classificado entre os "idiofones" (como um prato ou um xilofone).
É interessante observar a confusão que isso causa naqueles que aplicam o texto dos "gritos com tambores" à música da igreja sem nenhuma reflexão. Para se livrar da confusão, tais pessoas 'esticam' o texto e o aplicam à percussão em geral. Mas isso gera um outra confusão: havia percussão na "lista de instrumentos do Templo" (que é outro argumento-padrão contra a música contemporânea.)
Assim, veja o dilema: se o texto se refere especificamente aos "tambores", os idiofones estão livres. Mas se o texto se aplica aos instrumentos de percussão em geral, então a Bíblia está errada ao recomendar esses instrumentos e o argumento da "lista de instrumentos do Templo" não deve ser usado (pois incluem os idiofones percutidos).
E poderíamos ampliar a confusão citando a bateria eletrônica, a percussão feita em sintetizadores, em teclados e softwares, o beatbox, a percussão programada em computadores, etc.

Que argumentos usaremos agora?
Qual seria o escape de quem usa o argumento "haverá gritos com tambores" sem pensar?
Uma opção talvez fosse dizer: "não importa se é real ou virtual, ao vivo ou gravado. Se faz 'som de percussão' tá fora!"
Essa seria uma fuga desesperada, mas igualmente inútil: é possível fazer 'som de percussão' numa infinidade de instrumentos.
Esse violão dispensa percussão:
Esse faz beatbox com a flauta transversa:
Esse faz percussão no piano:
Ninguém ousaria sugerir uma proibição ao violão, à flauta e ao piano, certo? É claro como o sol do meio-dia que os instrumentos são servos dos instrumentistas e fazem apenas o que o músico quer (e tiver habilidade de fazer).
E então, por que eu não deveria usar um cajón na minha igreja?
Se eu quisesse argumentar contra o cajón (o que não é o caso), eu não distorceria o texto dos "gritos com tambores". Eu talvez usasse argumentos como:
- "Desculpe-me meu jovem, mas você ainda não sabe tocar isso direito!"
- "Isso não combina com os hinos do hinário, só com música moderna. 'Tá feio!"
- "Você toca fora do ritmo e atrapalha os demais. Vá estudar e praticar." ( Mas isso valeria para qualquer instrumento)
- "A maioria dos membros dessa igreja é contra" (obviamente, essa pesquisa deve ter sido feita antes, e ser real, não um 'achômetro').
Repare que são argumentos discutíveis (alguns sofríveis e subjetivos), mas que pelo menos não tentam manipular as palavras da Mensageira do Senhor.

PS: Antes de entrar na discussão, experimente fazer esse teste sobre instrumentos.