sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O que escrevi para a redação da Revista Adventista

No mês de Dezembro, a Revista Adventista (RA) publicou o artigo "Instrumentos de percussão na música sacra", do Dr. Ozeas Moura. Recorri à minha Bíblia, minha biblioteca, aos amigos da comunidade JA do Orkut, e ao meu marido (heheh) e escrevi a seguinte resposta:

Olá pastor Ozeas. Espero que tudo esteja bem com o senhor.
Sou moderadora da maior comunidade de Jovens Adventistas da internet (mais de 65 mil membros). Amo minha igreja e o seu apego ao firme fundamento da Palavra do Senhor.

Li o seu artigo sobre a música na Revista Adventista, discordei e achei por bem lhe escrever.
Poderia escrever bastante sobre as já comprovadas falácias e equívocos de uma de suas fontes (a obra de Bacchiocchi, “O cristão e a música rock”). Mas prefiro me ater à Bíblia e a Ellen White.

1) Toda a sua argumentação serve para condenar outros instrumentos. Troque a palavra “tambores” por "flautas" e releia o seu artigo: serve pra condenar as flautas também.

-Eram instrumentos populares, usados na musica secular e na musica dos pagãos.
-Estavam no primeiro transporte da arca
-Saíram da lista no segundo transporte da arca
-Não estavam na lista de "instrumentos de Deus"
-Não eram usadas dentro do templo
-Aparecem nos Salmos, mas os Salmos são simbólicos...
-Aparece em Ez 28:13, mas a tradução ali esta errada.

Se o senhor tem razão, as flautas devem ser proibidas na igreja.

2)Há um erro sutil ao definir música sacra = música dentro do templo.
O Sr escreveu: "Analisemos, primeiramente, a musica fora do ambiente do templo, ou seja, musica secular, de entretenimento ou de celebração por algum evento."

Há um claro equivoco aqui: musica secular = musica fora do templo?
Não. Musica sacra era feita fora do templo também.

O cântico de Moises, o de Miriam, o dos profetas, o de Davi, a musica de louvor descrita e incentivada nos Salmos para ser feita na assembléia, pelo povo (fora do santuário).
Muitas experiências musicais de genuína adoração aconteceram fora do templo.
As festas religiosas judaicas envolviam muita musica sacra fora do templo.
Se o Sr. raciocina em cima de uma base frágil, o prédio inteiro vai cair.

A sua divisão entre musica sacra e musica secular é totalmente equivocada e auto-refutadora: a musica do transporte da arca ocorreu fora do templo, ou seja, foi musica secular de acordo com a classificação do Dr. Ozeas.
Então, pra que usar esse evento de música secular como algo normativo para a musica sacra? Incoerência interna no raciocínio.

3) Há um outro erro sutil: musica dos profetas = secular
"Na musica secular ou de entretenimento, usavam-se instrumentos de percussão como o tamborim, às vezes traduzido por “adufe” (no hebraico, toph pequeno tambor de mão ou pandeiro), usado para acompanhar, ritmadamente, a musica e a dança, nas festividades e cortejos (Gn 3:27; Ex 15:20; Jz 11:34; 1Sm 10:5, 18:6; 2Sm 6:5; Sl 149:3; 150:4, etc)."

Aparentemente, um raciocínio certo.
A sutileza do erro está em classificar de “musica secular ou de entretenimento” a musica feita pelos profetas em 1 Sm 10:5. Ellen White comenta esse evento com as seguintes palavras:

“Em Gibeá, sua cidade, um grupo de profetas, voltando do "lugar alto", cantavam o louvor de Deus, com música de flautas e harpas, saltérios e tambores. Aproximando-se Saul deles, sobreveio-lhe o Espírito do Senhor e ele também tomou parte em seu cântico de louvor, e com eles profetizou. Falou com tão grande influência e sabedoria, e com tanto fervor se uniu ao culto, que aqueles que o conheciam exclamaram com espanto: "Que é o que sucedeu ao filho de Quis? Está também Saul entre os profetas?" I Sam. 10:1-11.
Tendo-se unido Saul com os profetas em seu culto, uma grande mudança operou-se nele pelo Espírito Santo.”
PP, 610.

Não era música secular e nem de entretenimento. Era culto de louvor.

No mesmo parágrafo, você cita o cântico de Miriam e das mulheres como exemplo dessa musica supostamente "secular e de entretenimento" (Ex 15:20).
Mas veja Ellen White comentando:

“Semelhante à voz do grande abismo, surgiu das vastas hostes de Israel aquela sublime tributação de louvor. Deram-lhe início as mulheres de Israel, indo à frente Miriã, irmã de Moisés, ao saírem elas com tamboril e danças. Longe, por sobre o deserto e o mar, repercutia o festivo estribilho, e as montanhas ecoavam as palavras de seu louvor - "Cantai ao Senhor, porque sumamente Se exaltou". PP, 288-289.

Ellen White torna o cântico de Moisés e a celebração de Miriam um evento só.
Não teve nada de "secular e entretenimento" aí.
Foi "sublime tributação de louvor", com percussão.

4) Citações bíblicas inadequadas. O seu artigo diz:
"Na musica secular ou de entretenimento, usavam-se instrumentos de percussão como o tamborim, às vezes traduzido por “adufe” (no hebraico, toph pequeno tambor de mão ou pandeiro), usado para acompanhar, ritmadamente, a musica e a dança, nas festividades e cortejos (Gn 3:27; Ex 15:20; Jz 11:34; 1Sm 10:5, 18:6; 2Sm 6:5; Sl 149:3; 150:4, etc)."

O que os versos de Ex 15:20; 1Sm 10:5, 18:6; Sl 149:3 e 150:4 fazem num parágrafo a respeito de música "secular e de entretenimento"? São verso que falam de música de louvor e adoração, e não de música secular e de entretenimento.

Já mostrei o que EGW fala dos outros textos, mas:
-Usar Salmo 149:3 para exemplificar música "secular e de entretenimento" foi um claro equívoco. O próprio Salmo afirma que se trata de louvor a Deus.
-Usar Salmo 150:4 para exemplificar música "secular e de entretenimento" foi outro claro equívoco. O próprio Salmo fala que se trata de louvor, não de entretenimento.
Eles tratam de genuína adoração. E incluem percussão.

5) Associação com o paganismo.
"Em se tratando de musica sacra, apresentada no culto em louvor a Deus, vê-se que tambores e tamborins (o mesmo que adufes) ficaram de fora da musica sacra, apresentada no templo, uma vez que estavam associados ao culto pagão e por fazerem parte da musica secular, de comemoração ou entretenimento."

Já vimos que a definição de “musica sacra = musica dentro do templo” é incorreta, pois havia musica de louvor e adoração fora do templo.
E falta base bíblica para afirmar que tambores ficaram de fora por estarem "associados ao culto pagão." A Bíblia não afirma isso em lugar algum (pelo menos eu nunca achei).

E se estar associado ao paganismo é problema:
- Prostitutas usavam harpas (Is 23:16)
- Pagãos usavam, dentre outros instrumentos, harpas e alaúdes (Is 14:11; Ez 26:13; Dn 3:5; Jó 21:12;)
- Incrédulos e bêbados infiéis usavam harpas, dentre outros instrumentos (Is 5:12)
- Um descendente de Caim é chamado de “pai dos que tocam harpa e flauta” (Gn 4:21).
- A maldição divina sobre a Babilônia mística do Apocalipse inclui:

“E em ti não se ouvirá mais a voz de harpistas, de músicos, de tocadores de flautas e de clarins, nem artífice de arte alguma se achará mais em ti. Em ti não mais se ouvirá ruído de mó”.

2 instrumentos usados no templo estão aí. E nem menciona a percussão.
Não existe nenhuma base bíblica para a afirmação que a percussão não entrou no templo por causa de sua associação com o paganismo. O Sr. deve ter tirado isso do livro do Bacchiocchi, e não da Bíblia. Além disso, o artigo ignora a ausência de outros instrumentos no templo, como a flauta.

6) A interpretação dos Salmos: Lógico que nos Salmos há linguagem simbólica e poética. Mas não há APENAS linguagem simbólica e poética. Usamos os Salmos para ensinar doutrinas como estado do homem na morte, inferno, mordomia, a messianidade de Jesus, etc. E sempre encaramos essas partes como literais (pelo menos alguns substantivos importantes).
Faltou critério aí. Aplicou-se um “8 ou 80 “ aos Salmos: ou é tudo simbólico ou é tudo literal. O que, logicamente, está errado.

Obviamente, quando a Bíblia menciona adufes e tamborins, isso não é meramente poético.
E Deus não inspiraria elementos poéticos pecaminosos para falar de louvor.
Seria como dizer “poeticamente”: “comei carne de porco no santuário, povo do Senhor”, ou “Louvai ao Senhor com vosso adultério”.
Pra mim, essa foi a pior parte do artigo.

7) Ellen White contraria o seu artigo. O senhor escreveu:
“Miriã e outras mulheres dançando com tamborins (Ex 15:20)
Como já foi mencionado, tamborins eram permitidos na música secular israelita, usados em ocasiões de alegria e entretenimento. Miriã e as demais mulheres não estavam fazendo um culto, mas cantando e dançando de alegria pela morte dos guerreiros egípcios, afogados no mar Vermelho.”


Ellen White não concorda com essa sua descrição:

“Semelhante à voz do grande abismo, surgiu das vastas hostes de Israel aquela sublime tributação de louvor. Deram-lhe início as mulheres de Israel, indo à frente Miriã, irmã de Moisés, ao saírem elas com tamboril e danças. Longe, por sobre o deserto e o mar, repercutia o festivo estribilho, e as montanhas ecoavam as palavras de seu louvor - "Cantai ao Senhor, porque sumamente Se exaltou".

Este cântico e o grande livramento que ele comemora, produziram uma impressão que nunca se dissiparia da memória do povo hebreu. De século em século era repercutido pelos profetas e cantores de Israel, testificando que Jeová é a força e livramento daqueles que nEle confiam. Aquele cântico não pertence ao povo judeu unicamente. Ele aponta, no futuro, a destruição de todos os adversários da justiça, e a vitória final do Israel de Deus. O profeta de Patmos vê a multidão vestida de branco, dos que "saíram vitoriosos", em pé sobre o "mar de vidro misturado com fogo", tendo as "harpas de Deus. E cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro". Apoc. 15:2 e 3."
PP, 288-289.

Para o Dr. Ozeas, apenas uma ocasião de alegria e entretenimento.
Para Ellen White, um genuíno louvor profético, que aponta para nossa libertação final.

8) As Escolas dos Profetas (1 Sm 10:5). Sobre isso, o artigo diz:
"Uso de tamborins por um grupo de profetas em Gibeá-Eloim (1 Sm 10:5)
Esse texto indica que tamborins eram usados na música sacra antes das diretrizes instituídas pelo rei Davi (ver outro exemplo no salmo 68:24, 25). A partir dessas diretrizes, tamborins não são mais permitidos nem mencionados na música sacra israelita, por causa de sua associação com ritos pagãos."

Esse argumento merece ser “dissecado”, pois esse era um grupo de alunos das Escolas dos Profetas. Vou resumir o que EGW fala sobre isso (sem colocar os textos e a fonte, por questão de espaço):

-As Escolas dos Profetas foram idéia de Deus.
-A supervisão divina estava sobre todo o processo.
-O currículo incluía musica sacra como uma das principais disciplinas.
-Musica sacra não era praticada de qualquer jeito, mas cuidadosamente.
-Essa musica era de adoração.
-Essa musica era feita sob a influencia do Espírito Santo.
-Essa musica incluía tambores.
-Nas escolas dos profetas, a música (que incluía tambores) era ensinada com "um santo propósito, a fim de erguer os pensamentos àquilo que é puro, nobre e edificante, e despertar na alma devoção e gratidão para com Deus".
-Os principais assuntos nos estudos destas escolas eram a lei de Deus, com as instruções dadas a Moisés, história sagrada, música sacra (q incluía tambores) e poesia.
-Não havia valsas frívolas ou canções petulantes nas Escolas dos Profetas, mesmo com tambores.
-A arte da melodia sagrada era diligentemente cultivada. Ouviam-se sagrados e solenes salmos de louvor ao Criador, que engrandeciam Seu nome e relatavam Suas obras maravilhosas. Deste modo, fazia-se com que a música servisse a um santo propósito: erguer os pensamentos à aquilo que é puro, nobre e elevado, despertar na alma devoção e gratidão para com Deus. PP, 594.

O dr. Ozeas quer convencer o leitor que as Escolas dos Profetas ensinavam um tipo de musica que não refletia a vontade de Deus e que Deus apenas tolerou o erro deles e proibiu depois.
Ok. Só faltou nos informar de onde o Sr. tirou isso. Da Bíblia e de EGW não foi.

9) EGW e a Bíblia não concordam com o artigo
EGW o contradiz no assunto "A Escola dos Profetas" (1 Sm 10:5). Veja como ela descreve o evento:

"O Espírito de Deus era notadamente manifesto nesses seminários, em profecia e
musica sacra. Numa ocasião um grupo de profetas encontrou Saul no "monte de Deus", não longe de Gibea, com saltérios e tamborins, flauta e harpa.

Sob a influencia do Espírito Santo, esses homens estavam profetizando e louvando a Deus com a musica dos instrumentos e a voz do cântico.”
The Signs of the Times , 22 de Junho, 1882.

É música sacra institucional. Não é mero entretenimento tolerado e posteriormente corrigido.
É música divinamente instituída e divinamente influenciada. E com percussão.

De onde surgiu a sugestão implícita de que Deus apenas 'tolerou' isso e proibiu depois?
O dr. Ozeas deve mostrar mais claramente essa futura “proibição”, pois o que o artigo mostra são inferências baseadas em textos não tão claros, em detrimento de uma leitura simples e direta de textos claros. Textos claros interpretam textos obscuros, não?

Há um claro “assim diz o Senhor” posterior corrigindo o que era apenas tolerado (poligamia, uso de bebidas fortes, etc). Isso não acontece com o uso da percussão. A única coisa que o Dr. Ozeas apresenta é uma inferência baseada no argumento do silencio, que inclusive contradiz outros claros textos (Salmos por exemplo). Mas isso os evangélicos também fazem com o sábado e o dízimo no NT. E nós os combatemos.

Nesse parágrafo, o senhor também escreveu que depois “tamborins não são mais permitidos nem mencionados na música sacra israelita”. Os Salmos o contradizem, mencionando percussão na música de louvor e adoração israelita (Sl 68:25, 81:2, 149:3 e 150:4). Lembrando que a compilação desses Salmos inspirados mas supostamente equivocados no assunto "percussão" é bem posterior a Davi.

10) Igreja=Templo Judaico
“A música na igreja deve ser diferente da música secular, porque a igreja, como o antigo templo, é a casa de Deus e não um lugar de entretenimento. Instrumentos de percussão estimulam fisicamente e são inapropriados para a música na igreja hoje, como o foram para a música do templo no antigo Israel.”

Ninguém duvida que o lugar de culto cristão (chamado erroneamente de “igreja”) é um lugar especial, onde a reverência, decência e a ordem devem estar. Mas a comparação da “igreja” com o antigo templo (que permeia todo o artigo) é equivocada.
O templo não reflete o que praticamos hoje no culto cristão. Nosso culto não tem o ritual do santuário como modelo. Tambores e flautas não entraram no templo, bem como órgãos, decacórdios, estrangeiros, mulheres, aleijados, pregação, escolas sabatinas, coralzinho infantil, casamentos, bodas, cultos jovens, harmonia a quatro vozes, etc

11) A cereja do bolo: o texto de Indiana (como sempre)
Por que um artigo sobre música e percussão omite os textos de EGW sobre o cântico de Miriã, as Escolas dos Profetas, a descrição que ela faz do culto "erudito" sem percussão no Grande Conflito 566 e 567?
Mas é impossível encontrar um texto desses que não cite o famoso texto de Indiana.
O texto fala literalmente que a situação de Indiana se repetiria nas “reuniões campais”. Reuniões campais são reuniões campais. não são cultos JA, nem cantatas de Natal e nem cultos da Nova Semente.
Se você quer ampliar o texto e aplicá-lo ao cultos rotineiros da IASD, não restringi-lo às reuniões campais, extraia os princípios dali. Mas faça o mesmo com todos os elementos, e não pinçando a palavra “tambores” do texto. Ele não fala só de tambores.

Além disso, a experiência de Indiana (com tambores) é apenas mais uma das várias cenas de fanatismo que se repetiriam (como as de 1844, a do casal Mackin, etc). O detalhe que nunca escrevem em artigos é: a maioria delas aconteceu SEM tambores. Nossa história está aí, à disposição de quem quiser pesquisar. Publiquei algo a respeito em:
http://vanessinhameira.blogspot.com/2009/12/fanatismo-em-diferentes-maneiras-e.html

Muito já se publicou sobre o uso correto desse texto de Indiana em seu devido contexto. Artigo de Leandro Quadros e Valdeci Jr:
http://www.novotempo.org.br/advir/?p=1997

Não conheço o senhor, mas leio sempre os artigos que escreve e já ouvi falarem muito bem de sua capacidade como teólogo e professor de teologia. Não se trata de nada pessoal.
O que me motivou a escrever foi o “espírito” que está nesse texto :
"É importante que, ao defender as doutrinas que consideramos artigos fundamentais da fé, nunca nos permitamos o emprego de argumentos que não sejam inteiramente retos. Eles podem fazer calar um adversário, mas não honram a verdade. Devemos apresentar argumentos legítimos, que não somente façam silenciar os oponentes mas que suportem a mais acurada e perscrutadora investigação" (Evangelismo, p.166).

Deus o abençoe e continue iluminando o pastor e sua família.

Vanessa Meira

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O sexo das lesmas e o Criador

É meio nojento, mas muito interessante.

Perguntado sobre como assistir um DVD sobre insetos poderia se tornar uma experiência de adoração, John Piper tece comentários sobre planejamento inteligente e evolução:
ative as legendas no canto inferior direito


Para ver as cenas das lesmas, clique aqui.

Fanatismo “em diferentes maneiras” e a musica adventista

por Isaac Malheiros

Antes de ler, saiba que:
1) Não gosto de rock-rap-dance ou qualquer coisa estranha na igreja
2) Não gosto muito do gospel nacional
3) Seria a 4ª geração de “reformistas” na família, mas a graça de Jesus nos alcançou e libertou do legalismo.
4) Amo a minha igreja (adventista do sétimo dia)
5) Sou musico, e amo os hinos tradicionais.

O texto sobre a Campal de Indiana

Esse é um texto muito usado por adventistas na discussão sobre musica sacra:

As coisas que descrevestes como ocorrendo em Indiana, o Senhor revelou-me que haviam de ocorrer imediatamente antes da terminação da graça. Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música e dança. Os sentidos dos seres racionais ficarão tão confundidos que não se pode confiar neles quanto a decisões retas. E isto será chamado operação do Espírito Santo. (2 ME, 36)

Algumas pessoas usam esse texto para criticar a musica cristão contemporânea produzida na IASD. Mas, contextualize o problema: olhe para as fotos aqui expostas.

Esse grupo de pioneiros numa campal se parece um bando de headbangers agitando um mosh numa rodinha punk?
Olhe para essas figuras e seus figurinos. Que tipo de musica se produzia num evento como esse?
O tipo de musica que eles tocavam na campal de Indiana pode ser ouvido ainda hoje: eles imitavam as bandas do Exercito da Salvação, de acordo com varias testemunhas oculares.

Precisamos contextualizar historicamente o ocorrido em Indiana.

As reuniões campais

O movimento milerita (antes de surgir a igreja Adventista) realizava muitas reuniões campais. Nessas reuniões, eles seguiam um modelo desenvolvido previamente pelos metodistas.
As campais eram grandes acampamentos ao ar livre. Tendas eram levantadas, cozinhas eram montadas e o povo se reunia para orar, louvar e ouvir mensagens bíblicas.
As pessoas dormiam no chão, sentavam-se em toscos bancos de madeira e partilhavam sua fé ao redor das fogueiras do acampamento. Existem relatos de campais que reuniram ate 20 mil pessoas.

O programa de uma reunião campal incluía três reuniões gerais ao ar livre por dia. Essas reuniões eram intercaladas com reuniões sociais e de oração realizadas nas tendas armadas em um semicírculo irregular em torno da principal área de reunião.

Normalmente, as reuniões gerais aconteciam ao ar livre, reunindo todo o povo. Mas em caso de mau tempo, os cultos eram realizados simultaneamente em varias tendas-sede para cada grupo de crentes de determinadas regiões.

Os excessos emocionais

Era comum nas campais evangelicas em geral acontecerem fenômenos extáticos como gritos, choro convulsivo, prostrações, saltos e “línguas estranhas”. Nas campais mileritas esse sempre foi um perigo que rondava. Existem vários relatos de excessos em reuniões mileritas.

Em 1843, por exemplo, o pastor John Starkweather promoveu o fanatismo da extrema santificação em uma das reuniões campais. Ele e seus seguidores se diziam capazes de discernir a condição do coração dos adoradores, e no meio de muito murmúrio e gemido, convidavam homens e mulheres a renunciar aos seus “ídolos”, que poderiam incluir broches, faixas, cabelo trançado, ou ate mesmo dentaduras postiças!

Os adventistas do sétimo dia

Os adventistas seguiram o costume de realizar reuniões campais. Em 1º de setembro de 1868 aconteceu a primeira reunião campal oficial dos adventistas do sétimo dia.
Repare que o perigo do emocionalismo e fanatismo ainda existia, mas a igreja não abriu mão do que seria uma benção apenas por causa do risco de se tornar uma maldição.
Esse principio nos interessa aqui.

As preocupações e temores relacionados ao fanatismo e a desordem de outras reuniões campais se confirmaram mais tarde em alguns casos (como no caso do fanatismo da “carne-santa” na campal de Indiana, em 1900). Mesmo assim, os adventistas aprenderam a separar sabiamente o "bebê" da "água suja", e não jogar tudo fora. As reuniões campais foram mantidas, e abençoaram muitas vidas.
Repetimos esse comportamento quando sabiamente separamos os malefícios da tv, do radio e da internet e usamos esses meios para anunciar poderosamente o evangelho.
No entanto, na musica, parece que o menor risco de fanatismo, por mais distante e remoto que esteja, já justifica jogar o "bebê" fora junto com a "água suja".
A ironia é que, por medo do fanatismo, adotam-se posturas fanáticas!
Tentando evitar o futuro fanatismo, produz-se mais fanatismo hoje!

Voltando ao texto sobre a Campal de Indiana

E o texto? A respeito dele, notemos alguns pontos em seu contexto:
1) O texto se refere ao que aconteceu em uma reunião campal.
2) O texto se refere ao que aconteceria futuramente em reuniões campais, não em igrejas:

“E melhor nunca ter o culto do Senhor misturado com música do que usar instrumentos músicos para fazer a obra que, foi-me apresentado em janeiro último, seria introduzida em nossas reuniões campais.” (2ME, 36)
Mas em janeiro último o Senhor mostrou-me que seriam introduzidos em nossas reuniões campais teorias e métodos errôneos, e que a história do passado se repetiria. (2ME, 37)

Você tem todo o direito de ampliar a aplicação desse texto e imaginar tudo isso acontecendo em um culto rotineiro de uma igreja adventista. Mas não é isso o que o texto diz literalmente. Faço esse alerta porque vejo alguns se apegarem extremamente ao frio literalismo em alguns pontos convenientes, enquanto abrem espaço para interpretação simbólica do texto em outros pontos.

Se realmente queremos ser honestos como o que o texto esta dizendo literalmente, devemos aplicá-lo apenas as reuniões campais, e não a cantatas, musicais, iniciativas evangelisticas como a Nova Semente, etc. Mas se queremos extrair do texto princípios norteadores, devemos junta-lo aos outros textos que falam sobre o mesmo assunto e então chegar a uma conclusão mais racional.

3) O que aconteceu em Indiana não foi num culto dentro de um templo. Isso talvez não seja importante a principio, mas é. E eu explico por que: existem muitos críticos da musica crista contemporânea que fazem distinção entre cenas bíblicas de louvor dentro do templo e fora dele. Dizem: “realmente usaram percussão no louvor, mas nunca dentro do templo!” Pois bem: O que aconteceu em Indiana foi “fora do templo”, e o texto alerta que isso se repetiria também “fora do templo”. Portanto, sejam coerentes com vossa interpretação e parem de aplicar esse texto ao que ocorre “dentro do templo”. Esse é um argumento que serve apenas para quem pensa que templo judaico e igreja cristã são a mesma coisa (claro que não são, mas isso fica para um outro post).

Obviamente, não podemos desprezar o alerta dado a respeito do retorno do fanatismo. Mas devemos sempre nos lembrar que esse não é o único texto sobre o assunto e que ele tem um contexto histórico.

Fomos alertados que o fanatismo se repetiria de várias formas.

"Tenho estudado a maneira de fazer publicar novamente esses casos antigos, de maneira que mais pessoas dentre nosso povo sejam informadas, pois de há muito tenho conhecimento de que o fanatismo se manifestará outra vez, em diferentes maneiras." (2ME, 44)

O fanatismo já apareceu de diferentes maneiras entre os adventistas no passado. E voltaria em diferentes maneiras.

Em diferentes maneiras. Talvez já esteja se manifestando, de uma maneira não esperada: esperamos o fanatismo com ar de liberalismo, mas e se ele vier com ar de “ortodoxia” e conservadorismo?

Diferentes maneiras...

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Esse texto se baseou nas informações históricas do livro “Portadores de Luz – historia da Igreja Adventista do Sétimo Dia”, Richard Shwarz e Floyd Greenleaf (Unaspress, 2009).

Clique aqui para ver mais
imagens adventistas históricas

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

É hora de morrer... só por hoje.

Tem dia que a gente desanima.
Não com Deus. Mas consigo mesmo.
"Pois eu conheço as minhas transgressões..." (Sl 51:3)

A apatia é pior que a rebeldia, eu suponho.
Ela provoca náuseas em Deus. Ele está a ponto de vomitar os mornos (ver a carta à igreja de Laodicéia no Apocalipse), e preferia que fôssemos quentes ou frios.

Grandes pecados, escândalos, quedas espetaculares parecem proporcionar novos começos, novas arrancadas poderosas. O fundo do poço parece um lugar mais seguro e feliz que o "meio do poço", quando se está em decadência, se agarrando às paredes lamacentas enquanto se aproxima lentamente do fundo.

Os pecados do dia-a-dia, as bobagens, as pedrinhas à beira do caminho vão sufocando aos poucos á fé. Provocam comodismo, desânimo, e mornidão.

A solução bíblica para isso não é paliativa, é ultra-radical:

“fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena” (Cl 3:5)

O problema é radical: pecado produz morte eterna. Então a solução tem que ser radical...

sábado, 5 de dezembro de 2009

Cristianismo e Escravidão

É uma acusação comum contra os cristãos: "A Bíblia defende a escravidão!!"
Não. A Bíblia regulamenta e humaniza temporariamente a escravidão, uma prática que nunca esteve nos planos de Deus.

As leis divinas para Israel estabeleciam regras inovadoras para a relação senhor e servos. A servidão, conforme regulamentada no Antigo Testamento, em nada se parecia com a escravidão que permeia nossa mente: navios negreiros, senzalas, açoites, estupros.

Biblicamente, os servos tinham direitos e deveres. E ao lermos a Bíblia inteira, percebemos um movimento social em direção à igualdade e liberdade. E se a Palavra de Deus fosse levada à sério desde o início, a escravidão não teria durado tanto tempo. O Senhor estabeleceu o Ano do Jubileu, a cada 50 anos, terras seriam restituídas, todos os escravos seriam libertos, devedores seriam perdoados, e a igualdade seria celebrada ao lado da liberdade:

"Declarareis santo o qüinquagésimo ano e proclamareis a libertação de todos os moradores da terra. Será para vós um jubileu: cada um de vós retornará a seu patrimônio, e cada um de vós voltará a seu clã." (Lv 26:10)

O Novo Testamento fecha a questão deixando bem claro que no cristianismo "não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus." (Gl 3:28)

Deus estabeleceu a liberdade e a igualdade, o homem é que não consegue implementar isso. Até hoje.

O cristianismo bíblico genuíno foi o que impulsionou os grandes líderes dos principais movimentos abolicionistas. Homens como William Wilbeforce é que representam o cristianismo bíblico genuíno na questão da escravidão. Ao reduzir o cristianismo a jesuítas, violentos colonizadores movidos por ganância, a crítica anti-cristã utiliza a falácia do "espantalho": levantam um falso cristianismo e começam a criticá-lo. O cristianismo bíblico não deveria ser julgado pelos seus supostos seguidores mais incompetentes.

Sugiro o filme "Jornada pela Liberdade" (Amazing Grace), que conta a história de Wilbeforce e John Newton:



Por outro lado, o crítico anti-cristão se esquece que a teoria da evolução é que nos deixou como legado o darwinismo social, que combina muito bem com a escravidão: sobrevivência justifica a exploração social dos menos aptos.

Assim, da próxima vez que algum ateu-evolucionista se levantar com essa acusação, peça pra ele explicar qual é o problema com a escravidão, de acordo com a visão de mundo ateísta-evolucionista. O que impede a exploração de outros seres humanos na "doutrina" ateísta? E o que torna essa prática algo imoral, errado na cosmovisão dele? Pergunte e deixe-o se enrolar em suas próprias palavras. Ele não tem explicação pra isso dentro da cosmovisão dele, mas terá que tomar algo emprestado da sua: valores morais objetivos e valorização do ser humano como um ser especial.

Não deixe que os críticos o façam se sentir culpado por ser cristão. Sinta tristeza pelos erros dos cristãos nominais escravocratas, que simplesmente ignoraram o ensino bíblico por séculos. Mas sinta orgulho do que Jesus ensinou: somos iguais.


A história do hino Amazing Grace, contada e cantada ESPETACULARMENTE pelo pastor adventista Wintley Phipps, resume o sentimento cristão a esse repeito:

My Precious


Na ficção de Tolkien, O Senhor dos Anéis, Smeagol era um hobbit que se transformou no estranho e nojento Gollum.
Ele se tornou tão obcecado pelo anel que era capaz de qualquer coisa para obtê-lo: mentir, dissimular, matar, trair.
O anel era o seu tesouro maior, carinhosamente chamado de "my precious".

Os cristãos tem um tesouro, um precioso. Jesus é tudo pra nós. Ele é o nosso alvo, a nossa meta, a razão de nossa vida. Também estamos numa jornada, ela se chama "santificação".
Mas, ao contrário do acontece com Smeagol, a nossa busca pelo tesouro não nos descaracteriza, não nos degrada.

No entanto, o tempo se encarrega de tornar o nosso tesouro menos valioso aos nossos olhos. Já não o buscamos com a mesma avidez, com o mesmo interesse. Somos capazes de colocar o nosso tesouro na estante, ao lado de quinquilharias de valor sentimental. Ao fazermos isso, aí sim nos tornamos Gollum, vivendo na Terra Sombria.

Redescubra o tesouro. Recomece a jornada.
Que Jesus seja tudo em todos.


Para que serve o sofrimento?

"Meu avô fumou, bebeu e bagunçou a vida toda, e morreu bem tranquilo e velhinho.
Minha avó era crente, vegetariana. Morreu de câncer após anos de tratamento doloroso."


Relatos como esse nos fazem questionar como Asafe no Salmo 73: "Que vantagem tem servir a Deus, se eu sofro tanto ou até mais que os que nem querem saber dele?"

O "sofrimento" é uma das questões mais difíceis de se entender na Bíblia.
Por que sofremos mesmo sem aparentemente termos feito nada para merecer isso?
Essa questão afligiu muitos personagens bíblicos.
Mas um ponto esquecido é: há benefícios no sofrimento.
Mas cuidado. Não pense que Deus provoca sofrimento para nos ensinar uma lição.
Não é isso que eu estou dizendo. Deus não provoca sofrimento.
Deus consegue transformar maldições em bênçãos.

E quando passamos por provações, esse é um período de profunda conexão com nosso Pai.
Você pode sair desse período de sofrimento muito mais íntimo de Deus.
Uma intimidade que perdura para sempre.

Rob Bell explica